sexta-feira, 28 de agosto de 2009

II - pause

Fiquei pensando, e pra pensar naquele momento, precisava de uma pausa. De alguns dias, várias horas, muitos minutos de silêncio. Completo e vazio. Preto, escuro, sem luzes no fim do caminho. Até porque o caminho eu já conhecia, de olhos fechados poderia chegar ao final. Mas esse final eu não sabia exatamente onde chegaria. Precisei ficar fora por alguns dias. Nesses dias, que se passaram em várias horas de um sono que nunca chegou eu fiquei pensando. Dos muitos minutos que fiquei em completo silêncio, mas ainda pensando.
Pensei em tantas coisas que até agora poderia ficar pensando, continuando no mesmo ritmo flatulendo, parecido com o andar do trem. Aqueles que contornam montanhas, que desviam das barreiras monstruosas pra chegar ao seu final. Do túnel, do caminho, do que ele nos conta.
Esse era o momento de apertar o pause e aguardar por alguns segundos, talvez fosse necessária vários minutos ou muitas horas. O momento de respirar profundamente, sem esperar que os anjos dissessem amém. Não sei porque fui parar pra pensar em anjos. Onde estava o meu? Será que ele era homem mesmo? Preferia pensar que sim. Confiava mais no anjo homem, talvez porque precisasse de um porto seguro, forte, no sentido literal, o anjo. Com seu artigo bem definino - o. Mas depois de vários segundos, lembrei de Patrícia. Ah como era fácil me lembrar dela nesses momentos de amarga sanidade e lucidez. De clareza numa noite como aquelas.
Sabe quando você precisa ficar sozinha? Pois eu precisava. Off por uns tempos, ou por aqueles vários segundos ou muitos minutos que ainda havia para o dia clarear.

I don't even like it.

- Manu o que você ta fazendo? - sua voz era alta, volume máximo, me irritou naquele mesmo instante.
- Estava dormindo Renata, até você me ligar e começar a gritar no telefone - falei com a voz pastosa ainda de sono.
- Mas hoje é sexta!
- Eu sei - falei irritada.
- Mas você está sozinha aí?
- Não, a Carol veio dormir aqui comigo.
- Ta ficando com a Carol? Mas ela não estava ficando com a Marta?
- Não!
- Ela ta ficando com você?
- Não Renata, ela veio aqui dormir, só isso. Conversamos até pegarmos no sono. Aliás, que horas são hein?
- É cedo, meia noite passada.
- Hmm - meus olhos estavam pesados, queria continuar a dormir.
- Vamos sair?!
- Não Renata eu vou dormir.
- Eu to passando aí agora, ta?
- Não, eu quero dormir.
- Em dez minutos eu chego aí!
- Renata...
Ela desligou o telefone. Olhei para a cama de Débora e Carol permanecia dormindo. Talvez não estivesse ouvido quando eu falara com Renata. Até porque quem estava gritando era ela e não eu. Fechei novamente meus olhos, e depois de uma eternidade ouvi meu celular tocando novamente.
- Acorda Manu!!!
- Oi.
- Que voz de sono é essa?
- Eu estava dormindo, esqueceu?
- Eu to aqui na frente, vem abrir a porta pra mim.
- Ah Rê, eu quero dormir.
Ouvi ela falar com alguém.
- To subindo aí, o tio deixou eu entrar.
3 minutos depois ela estava batendo na porta.
- Ta aberto, entra sem fazer barulho - falei alto de mais.
Renata entrou e sem falar mais nada pulou na minha cama em cima de mim.
- Bom dia princesa - falava animada.
- Você ta me machucando Rê.
- To nada - me deu um beijo demorado na bochecha - tava com saudade de você.
- Mas a gente se viu hoje de manhã na aula.
- Pra mim parece ser uma eternidade.
- Fala baixo que a Carol ta dormindo.
- Oi Carol - gritou.
- Oi pra você também Rê - respondeu rindo.
- Viu só, você acordou ela, agora sai de cima de mim.
- Ah, não menospreza meu abraço.
- Não to menosprezando nada, você que está me sufocando - tentava empurrá-la, mas ela se segurava firme em mim.
- O que nós vamos fazer hoje? - ela estava animada, pelo visto não ia ser pouca coisa para conseguir tirá-la dali.
- Eu vou dormir e suspeito que Carol também - falei pedindo apoio a ela com os olhos.
- Eu acho que vou pra casa Manu, já ta na minha hora, ainda consigo pegar um ônibus.
- Ta muito tarde pra você ir.
- Não ta não Manu, mesmo, eu prefiro ir pra casa, não to muito animada por baladas hoje.
Depois de me dar um beijo, no que pode me alcançar pois Renata permaneceu deitada por completo por cima de mim, saiu do quarto fechando a porta delicadamente.
- Agora que estamos só eu e você aqui, quero fazer uma proposta pra você.
- Ih, lá vem.
- Manu desde quando você não confia em mim?
- Eu confio, você não me deixa respirar só isso!
Ela foi um pouco para o lado, não o suficiente para sair de cima de mim, mas o bastante para me deixar respirar novamente.
- Vamos sair eu e você.
- Mas a gente sempre sai, não sei o que tem de novo nisso - sorri virando-me para ela.
- Ah, vamos jantar então. Eu pago, tipo um encontro.
Soltei uma gostosa gargalhada.
- Encontro? Você andou se drogando?
- Não Manu, porque, pra quere sair com você só estando drogada?
- Não, mas pra você me propor uma coisa dessas sim!
- Você acha que eu sou um monstro né?!
- Não - sorri.
- Deixa eu levar você para jantar?
- Mas olha a hora que é.
- O que tem? Eu conheço vários lugares que a gente poderia jantar agora.
- Eu não to com fome Rêzinha querida, vamos dormir?
- Então eu posso dormir aqui?
- Dorme ali na cama da Débora, nesse final de semana que ela não estará em casa.
- Mas eu quero ficar com você.
- Mas você ficará bem perto de mim - sorri.
- Se é pra eu ficar eu vou dormir com você.
- Desde que você não ronque - ri.
- Não roncarei, prometo - sorriu de volta.
Entrou para baixo das cobertas comigo, ficou me olhando.
- Que foi?
- Nada.
Apaguei a luzinha da cabeceira. Pouco mais de dois minutos depois.
- Manu.
- Que?
- A gente não vai... ?
- Vai o que?
Se aproximou mais de mim passando seu braço por cima de mim me abraçando. Se inclinou para seu rosto ficar mais próximo do meu.
- Vai o que sua louca?!
Me beijou o pescoço passando sua mão por baixo da minha blusa.
- Você está louca? - repeti rindo. Tirei sua mão de mim.
- A gente vai dormir Renata!
- Sério?!
- Claro que sim.
- Mas pelo menos eu vou dormir abraçada em você - riu se aconchegando em mim.
- Não tenho muitas opções mesmo né?!
- Não.
Assim dormimos. Renata vez por outra tentava alguma coisa mais ousava, mas a cortava antes mesmo de começar. Ela ria. Me tirou o sono. Ficamos conversando o resto da noite sobre qualquer coisa, nada de muito importante. Mas ainda assim, dormimos. Na verdade ela, não eu.

domingo, 23 de agosto de 2009

Não sei

- Não sei, o que você acha?
- Não tenho muito o que achar.
- Mas pensei que você estivesse braba comigo - se calou por um breve momento - por eu ter ficado com ela. Não queria que ninguém me entendesse errado.
- Mas ninguém está dizendo nada, pode ter certeza. Todo mundo quer que você seja feliz.
- Pois é, mas tenho certeza de que muita gente acha que eu sou uma... - passou as mãos sobre o rosto esfregando seus olhos.
- Mas quem é essa gente?
- Os parentes dela, a prima dela, os amigos em comum, todo mundo que viu tudo começar e acabar.
- Mas não foi você disse que havia acabado há muito mais tempo?
- Sim.
- Então, todo mundo viu que as coisas não iam bem, não sei porque você se importa com isso e não com o que você realmente sente.
- Me importo com ela. A gente ficou juntas por muito tempo, não queria que as coisas acabassem desse jeito.
- Mas me diz uma coisa, existem outras formas de terminar um namoro?
- Claro que sim, a gente podia continuar amigas, eu não me importaria.
- Mas é difícil você ser amiga de uma ex.
- A gente nunca foi amigas, a gente sempre se gostou, desde sempre. Amiga é você - sorriu.
- Então, não tem porque querer ser amiga agora.
- Mas eu continuo me preocupando com ela.
- Pois não se preocupe, mais dia menos dia ela acha alguém para cuidar dela... - me arrependi um pouco de ter falado aquilo.
- É.
- Assim como você arranjou.
- Eu não arranjei ninguém, não to querendo compromisso, quero ficar um pouco sozinha. É isso que ela não entendeu.
- Ela sempre foi louca, e desculpe por falar isso, mas essa é a realidade, ela é chata!
- Muito chata né?!
- Sim!
- Pois é, mas eu gostava dela.
- Mas isso é passado, guarda as coisas boas e bola pra frente.
- Sabe que eu não consigo mais encontrar nada de bom que possa ter restado deste nosso relacionamento?
- Sempre tem alguma coisa.
- Eu fico triste por isso, a gente deixou a coisa chegar a tal ponto que não tenho mais lembranças de coisas boas que a gente fez juntas.
- Então isso é mais um motivo pra você deixar isso pra trás de vez.
- Mas eu deixei.
- E porque estamos falando sobre isso ainda?
- Porque eu não queria que as pessoas me vissem como a monstra da história, eu sempre fiz de tudo pra que a gente não terminasse, eu que aguentei tudo sozinha, ninguém venho me ajudar e me perguntar se estava tudo bem. Todos só acreditavam nela.
- Você se preocupa de mais com que a família dela pensa ou vai pensar. Você não namorou com o pai dela, e sim com a sua filha. A gente não pode agradar a todos, isso é impossível.
- Mas a única pessoa que eu tinha que agradar era ela.
- Exatamente.
- Só que pra agradar a ela eu tinha que agradar aos seus parentes. Todos eles!
- Mas agora você não está mais com ela.
- Eu sei, mas eles devem ta me xingando agora, me chamando de horrores, dizendo que eu não presto. Tudo que eu demorei tantos anos pra construir em relação a seus pais, a confiança que principalmente o pai dela tinha sobre mim, depois de tudo, simplesmente por água abaixo.
- Mas quem disse que foi em vão? Você fez o que pode enquanto precisava ser feito.
- Queria falar com o pai dela.
- E porque você não vai lá e fala?
- Porque não tenho cara de chegar e falar.
- Acho que isso é muito menos constrangedor do que você está achando.
- Eu sinceramente queria agradecer a ele por tudo que ele fez, por ter mudado tanto pra agradar nós duas.
- Mas o que te impede de ir lá e falar?
- Ela. É capaz de quando eu chegar lá ela ache que eu to indo lá pra falar com ela, pra pedir pra voltar e faça um escandalo.
- Mas se fizer vai ser só mais um.
- Não sei Manu, é complicado isso.
- Tudo sempre é complicado, cabe a gente resolver essas coisas.
Ela me olhou por alguns segundos sem falar absolutamente nada.
- E você como está?
- To bem, nada de mais.
- Nada de mais mesmo?
- Naquelas - sorri não conseguindo esconder.
- Você quer conversar sobre isso?
- Não sei - respondi franca.
- Ela é uma menina muito especial mesmo. Só que tudo que a Maria tinha de chata ela tem de louca, ela é de lua, complicada mesmo. Por isso que nunca insiti em ficar com ela - sorriu.
- Ela quem? - me fiz de desentendida.
- Yumi.
Concordei em silêncio.
- A Má sempre me disse que vocês ainda ficariam.
- Eu duvido muito.
- Ela é complicada mas não é impossível.
- Mas pra tudo a gente tem um limite. Meu limite com ela já acabo.
- Acabou nada.
- Acabou sim. Acabou pra isso, pra outras coisas eu tenho paciência o suficiente - sorri.
- Ela gosta de você.
- Gosta nada.
- Ela veio falar comigo esses dias.
- E aí? - não me contive.
- Ela me falou do escandalo de vocês - sorriu pegando mais um cookie de cima da cama.
- Ela acha que eu sou uma idiota, sabe?
- Ela não sabe o que quer.
- Percebi isso, mas eu sei o que eu quero.
- E o que você quer?
Sorri olhando-a.
- Viu, nem você sabe o que você quer!
- Eu sei sim Carol. Ela que não sabe o que quer.
- Ela sofreu de mais no seu último namoro antes da Jéssica, e antes daquele outro cara. A primeira vez que ela namorou de verdade. Mas se eu contar pra você, você vai me jurar que nunca vai comentar isso com ela.
- Prometo que não conto.
- Resumidamente ela se apaixonou por uma menina da escola dela. Elas ficaram por alguns meses, ela era louca por aquela menina. Como era o nome dela mesmo... Era Suzy se não me engano era isso. Ela terminou com a Yumi porque disse que era complicado pra ela namorar assim, os pais da menina acabou descobrindo, enfim, foi um inferninho tudo. A menina desistiu de namorar porque era muito difícil. A Yumi ficou muito triste, emagreceu horrores, foi parar no hospital porque não comia, ninguém entendia direito porque de tudo isso acontecer. Ficou com depressão.
- Nossa.
- É, a partir daí ela tem medo de namorar, de se envolver com alguém e depois a pessoa terminar com ela. Eu vejo que ela fica com as pessoas que são simples, que não tem erro de dar alguma coisa inesperada sabe?
- Sim, mas namorar com a Jéssica deve ser difícil, se ela gosta da menina e não pode ficar com ela sempre.
- Mas ela não gosta da Jéssica, isso é só mais uma pessoa na vida dela.
Estranhamente fiquei feliz.
- Mas porque ela namora então?
- Porque ela precisa de alguém pra ela poder terminar, pra ter alguém que dê atenção à ela. Ela é louca, eu falei.
Ri.
- Mas não comenta isso com ela.
- Pode deixar que não comentarei nada.
Ela voltou a deitar na cama de Débora, seu olhar ela distante. Talvez estivesse pensando em Maria.
- Posso te fazer uma pergunta Manu?
- Se eu puder não responder - sorri.
- Você gosta dela né?!
- Dela quem?
- Da Yumi.
Mordi meus lábios, apertei meus olhos, me calei. Ela concordou também em silêncio. Não acho que isso faria alguma diferença naquele momento.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Round 2, fight!

Tomei um banho rápido, mas o suficiente para levar pelo ralo toda minha irritação de outrora. Enquanto aquela água quente caía sobre meu rosto fiz esforço para deixar Yumi ir embora da minha cabeça e do meu coração. Que ela fosse apenas mais uma amiga, era isso que ela queria, e que eu enfim iria querer também. Bastavam alguns dias, algumas festas, algumas doses de tequila com limão e sal que tudo ficaria bem. Quando saí do banheiro dei de cara com um rapaz baixinho e barbudo, apenas lancei-lhe um sorriso simpático que o desarmou do possível xingamento pela demora no banheiro.
Abri a porta do quarto e levei algum tempo até entender que havia outra pessoa além de Débora.
- Ela disse que precisava falar com você - Débora apontou para o lado.
Era Yumi com uma cara estranha.
- O que você ta fazendo aqui?
Mas antes que ela começasse a falar olhei para Débora que fingiu continuar a ler um livro qualquer, puxei Yumi pelo braço e levei-a até o saguão de entrada.
No caminho não falamos absolutamente nada.
Chegando lá Yumi despejou.
- Você é louca por sair daquele jeito?
- Você veio aqui pra me chamar de louca?
- Eu não entendo, pra que sair daquele jeito da minha casa? Nem conversar comigo você conversou, simplesmente saiu.
Toda a raiva que havia descido pelo ralo enquanto tomava banho deu lugar ao sangue que me subiu à cabeça.
- Você só pode estar brincando. Eu - frisei - eu não quis falar com você? Eu fiquei esperando mais de vinte minutos você fazer o que quer que seja que estivesse fazendo pra falar comigo e o máximo que obtive foi um "já vai"! E vai me dizer que eu - fresei novamente - que eu sai que nem uma louca? Ah, dá um tempo né Yumi?!
- Mas eu estava brigando com a Jéssica, você bem que podia compreender isso.
- Eu já compreendi coisas de mais com você, não sou uma palhaça pra sair cansada do trabalho, andar metade da cidade pra ir te ajudar pra chegar à tua casa e ficar esperando você resolver os teus problemas amorosos.
- Pensei que você fosse minha amiga.
- Não me venha com essa Yumi, amizade é diferente de ser palhaça dos outros. Agora se você veio aqui pra me chamar de louca e duvidar da minha amizade por você, então com licença.
Virei as costas e sai caminhando. Ela me segurou com força.
- Espera.
- Esperar o que Yumi?
Ela ficou em silêncio me olhando.
Eu tentava conter minha raiva.
- Sinceramente Yumi - respirei fundo - o que você quer de mim?
Olhei-a diretamente nos olhos. Ela por sua vez desviou o olhar.
- Olha pra mim Yumi, só quero saber isso, o que você quer de mim, porque eu faço tudo pra você e você sabe disso, você não é burra, então vamos deixar tudo esclarecido. Eu fui correndo te ajudar, pra chegar lá e ficar que nem uma idiota esperando você fazer todas as suas coisas até chegar a minha vez, pra enfim você me dar atenção e falar comigo. Me fala Yumi, o que você quer de mim?
Ela não respondia.
- Yumi eu vou ser franca com você, eu podia te jogar de um prédio agora de tanta raiva que eu to de você, porque ninguém gosta de ser tratada assim, como uma coisa qualquer, ainda mais quando a gente gosta da pessoa. Quer dizer, eu confio em você, você sabe disso. Não gosto de ser tratada assim por alguém que é tão importante pra mim. Só que eu quero entender as coisas.
Ela permanecia imóvel, sua mão ainda segurava meu braço com força. Seus olhos eram pra tudo, menos pra mim.
- Yumi, quando você souber o que você realmente quer de mim me avisa. E olha bem, isso não é uma ameaça nem coisa parecida. Eu só to me cansando disso tudo.
Ela ficava quieta, aquilo me fez ficar com mais raiva ainda, perdi qualquer vestígio de paciência que aquela senhorinha havia plantado dentro de mim.
- E você agora fica quieta com essa cara de paisagem - explodi, essa era a hora de tomar coragem e alguma atitude, não importando para que lado pendesse, mas que pendesse para o mais urgente - Yumi eu to caindo fora - falei respirando forte - eu sei o que eu quero de você, quando você decidir nessa tua cabecinha louca aí o que você quer de mim você me avisa. Até lá vê se me esquece um pouco.
Me desvencilhei dela, indo enfim para o meu quarto.
Sentia raiva por Yumi ter ficado apática com tudo que eu estava falando. E ali, estática sem fazer absolutamente nada. Nem um sorriso, nem uma lágrima, nem um piscar de olhos, nem eles voltados para mim. Nada, absolutamente nada.
Como sempre, o nada.
Aquela quarta-feira estava sendo o pior dia da minha vida. Entrei no quarto e dei de cara com Débora. Ela percebeu que eu estava nitidamente nervosa, pois caminhava de um lado para o outro.
- Aconteceu alguma coisa?
- Não.
Ela aguardou alguns minutos até continuar.
- A menina que estava aqui...
- O que tem ela? - perguntei com raiva.
- Ela... Ela tava estranha, parecia que tinha acontecido alguma coisa de muito ruim.
- Deve ter acontecido mesmo, ela deve ter olhado no espelho e visto uma louca nipônica. Completamente louca! - praguejei.
- Hm.
- E eu não acredito que ela veio até aqui pra ME chamar de louca. Eu, uma louca, imagina!
- Posso fazer uma pergunta pra você?
- Faz.
- Ela é sua namorada?
Olhei incrédula para ela.
- Que?
- Sei lá, vocês meio que parecem namoradas.
Soltei uma gargalhada maquiavélica.
- Não Débora, nós definitivamente não somos namoradas. Antes fosse - ainda completei para o seu horror - antes ela fosse minha namorada porque ao menos eu poderia ter o gostinho de terminar com ela. Mas nem isso aquela louca me deixa fazer. Nem isso!

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Quarta-feira de cinzas

Estava no ônibus indo depois do trabalho para a casa de Yumi. Ela insistentemente havia me forçado (eu sem tanta resistência assim, confesso) a ir para a sua casa ajudá-la a fazer um trabalho da faculdade. Eu já havia lhe explicado inúmeras vezes como ela poderia resolver suas dúvidas, mas ela insistia que eu fosse lá. Eu fui, não era besta, ou justamente por eu ser besta, lá estava eu tocando no interfone. E como eu era idiota, ela nem ao menos veio abrir a porta para mim, apenas soltou um "oi, sobe". Eu que desse meia volta e mandasse ela ir pra p. que pariu. Ela pensava que eu era o que?
Quando sai do elevador percebi que a porta estava entreaberta, entrei sem hesitar. Ouvia apenas o som de teclas sendo digitadas. Então ela estava no computador, ocupada de mais para abrir a porta pra mim. De certo estava falando com Jéssica.
- Yumi?
- Vem cá, to no quarto.
Entrei devagar pensando se iria ou não dar meia volta.
- Oi Yumi - falei desanimada constatando que realmente ela estava na frente do computador com o MSN ligado.
- Oi Manu, só um instante.
Aguardei 10 minutos sem falar absolutamente nada, esperando que enfim ela parasse de falar com Jéssica. Sim, pude ver através de alguns movimentos de Yumi que elas estavam brigando por alguma coisa que não entendi, também não estava muito a fim de ficar prestando atenção na conversa delas.
Mais 10 minutos, entre um "já to indo Manu".
Respirei fundo, estava mais do que na hora de eu dar um basta em tudo aquilo. E aquilo eu me referia a mim mesma, não à Yumi.
Respirei mais uma vez fundo. Nada de Yumi se voltar para mim.
- Pra mim chega - falei sem esperar resposta nem o seu olhar.
Sai do apartamento sem olhar para trás. O elevador não estava me esperando, então desci as escadas quase correndo, bufando de raiva. Raiva de mim, de me prestar a tudo isso pra nada. E a desgraçada nem pra vir atrás de mim perguntar alguma coisa, falar comigo. Talvez eu fosse isso pra ela mesmo, uma nada que, alguém que não valia a pena perder tempo e sua atenção. Enquanto eu ficasse assim na sua mão era assim que ela continuaria me tratando. Mas eu não era tão burra assim. Eu que começasse a por em prática minhas tentativas de deixar Yumi de vez pra trás.
Pelo menos dei sorte encontrar alguém no portão para abri-lo para mim.
Caminhava rápido, nem sentia minhas pernas. E nem ao menos ela veio falar comigo. Aquela louca!, praguejei.
Entrei no ônibus com a cara fechada, talvez até de mais, pois o cobrador me lançara um olhar estranho, quase piedoso para mim.
Sentei em um banco sozinha, que bom que por um milagre divino naquela hora ainda haviam bancos disponíveis. Um senhora sentou ao meu lado, sorrindo. Eu lhe retribui minha cara de ódio por Yumi. Seu sorriso ainda assim não diminuiu.
- Acho que vai chover hoje.
- Espero que não pois não tenho guarda-chuva - respondi ríspida.
- Mas você desce muito longe?
- Não, é perto por sorte.
Novamente me virei para a janela, tentando mostrar com meus braços cruzados, cara fechada, fone de ouvidos no máximo, que não estava a fim de conversas de ônibus. Mas ela insistia.
- Nossa, hoje eu resolvi fazer umas comprinhas aqui perto, comprei presente para o meu sobrinho, ele ta de aniversário.
- Hm - respondi por que eu ainda era educada, apesar da raiva.
- Quer ver o que eu comprei pra ela?
Ai que saco! - sim, posso ver - forcei um sorriso que saiu rasgando da minha boca, quase metralhando a vovó.
Tirou de uma das sacolas um carrinho azul que acendia uma luz quando apertava no botão.
- Será que ele vai gostar? Ele já tem cinco anos.
- Acho que vai, quando a gente é criança os únicos presentes que gostamos são os brinquedos.
- É? Faz tanto tempo que eu não sou mais criança que eu quase me esqueço como é. Comprei para a minha netinha de seis anos um casaquinho da Hello Kity, será que ela não vai gostar então?
- Vai sim.
- Mas você disse que as crianças gostam de brinquedos.
Já estava perdendo a paciência com a senhora.
- Não te estressa, criança gosta de qualquer coisa! - bufei involuntária.
- Hm - respondeu um pouco acuada. Ficou quieta por alguns segundos.
- Aceita uma balinha - me estendeu um saco cheio de balas de goma - comprei esse saco por um real, acredita?
- Que legal.
- Quer uma? - ainda com as mãos estendidas para mim.
- Não, obrigada.
- Ah, essa juventude de hoje preocupada com a saúde acha que uma balinha dessas vai engordar.
Sorri quase fuzilando a senhora.
- Eu não gosto muito dessas balas aí, grudam nos dentes, um saco.
- Pois eu gosto, elas são bem docinhas, ajudam a adoçar a vida - ficou me olhando. Olhei para o lado duas vezes para ter certeza de que ela permanecia na mesma posição.
- Então eu preciso de um saco inteiro dessas aí.
- A tua vida não anda muito doce?
- Não! - lembrei de Yumi e sua total falta de atenção para comigo.
- Nessa idade tudo parece não dar certo, ou falta dinheiro pra balada, ou é o namorado que fica com outra, ou é a amiga que pega alguma coisa que não devia. Vocês jovens deveriam aproveitar mais essa idade. Essa é a fase mais gostosa que temos. Ainda não se tem família pra sustentar, já tem autonomia pra fazer as suas coisas, mas as consequências nem sempre caem em cima de vocês. Não hoje, só amanhã. Mas como o que importa é o hoje, eu sugiro que você coloque um belo de um sorriso nessa tua carinha linda, pois você é uma menina muito bonita e simpática (nesse momento me pergunto de onde ela tirou que eu sou simpática) que me fez ver que minha netinha não irá gostar só de uma roupa né?! - sorriu.
- Acho que se a senhora desse algum brinquedo ela ficaria mais feliz - falei me desarmando um pouco.
- E o que você diria que uma garotinha de seis anos gostaria?
- Aí eu já não posso lhe ajudar, não tenho muitas experiências assim com crianças.
- Mas você já foi criança há muito menos tempo que eu, pode ter certeza! - sorriu simpática.
- Isso é! - falei enfim sorrindo.
Antes de se levantar a senhora ainda falou.
- Sabe, na tua idade eu também era assim, achava que os problemas com o namorado ou a falta de dinheiro pra ir pra um boteco beber era a pior coisa que existia na vida, que a faculdade era cansativa de mais. Agora pense, na minha idade infelizmente nem isso mais eu tenho pra me preocupar, nem faculdade, nem dinheiro e nem muito menos um namorado.
Saiu sorrindo. Fiquei pensando no que a senhora simpática havia falado. Meus problemas não eram tão problemáticos assim. Yumi que era meu problema. Não reclamava da minha faculdade, do meu trabalho, das minhas amigas, só de Yumi. Mas depois do papo com a velhinha me senti mais leve, sem tanta raiva assim. Que Yumi fosse só uma roupa da Hello Kity que eu trocaria por um novo brinquedo, talvez esse mais animado.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Uma gota caída

- Tem certeza de que não quer uma água?
- Déia, eu tenho certeza.
- Então saí dessa agora.
- Sai.
- Quero ver.
- Ta vendo aquela menina aqui reto? - apontei discretamente com meu dedo.
Déia espalhafatosa como sempre escancarou seu braço em direção à menina. Segurei-a.
- Essa mesma.
- O que tem ela?
- Ta me olhando já faz um tempo.
- Ela é gostosa - riu-se - vai lá falar com ela!
- Pois é, faz tempo que eu não faço isso - sorri.
- Mas chegar em menina é que nem andar de bicicleta, aprende uma vez e nunca mais esquece.
- Nossa Déia, hoje você ta parecendo um homem, só falta agora coçar o saco - ri.
- Eu só espero que quando essa tua paixonite pela Yumi acabar você não continue com essa incerteza das coisas.
- Você acha que é por causa de Yumi?
- Tenho certeza, a não ser que você tenha mudado de personalidade ou aquela menina que você me contou ser há tempos atrás nunca existiu.
Antes que pudesse começar a devagar em meus pensamentos, a menina me deu um sorriso.
- Vai que agora é a hora! - Déia me empurrou com força em sua direção.
Praguejei em silêncio, pois me aproximara o suficiente dela a ponto de não poder mais abortar. Ela percebera a intenção de Déia e voltou a sorrir.
Talvez eu estivesse assim mesmo por causa de Yumi.
- Oi - sorriu.
Mas porque era estranho tudo aquilo que acontecera com nós duas lá em cima do apartamento de Marta.
- Oi - respondi sentindo que ela se aproximara de mim.
O nosso quase beijo.
- Tudo bem com você?
E aquela sensação de que aquilo sim fora muito maior do que um beijo qualquer em qualquer pessoa.
- Tudo, e com você?
Yumi era uma vaca mesmo. Ficava me incitando a fazer as coisas, e na hora H simplesmente virava o rosto, como se eu pudesse me conter sempre, e simplesmente estancar tudo que eu sentia por ela.
- Agora ficou ótimo.
E ainda essa xavecada?
Sorri sem saber o que dizer.
- Eu tava te olhando de longe, tenho a impressão de que já vi você por aqui.
- Pode ser - sorri sem saber realmente o que falar - eu ando sempre por aqui - péssimo.
Mas que Yumi fosse para o inferno, eu que aproveitasse minha vida, minhas coisas, aquela menina que estava ali na minha frente me olhando, com aquele diálogo só esperando eu dar uma brecha ou tomar alguma posição. Que fosse. Parasse de ficar esperando as coisas acontecerem, essa não era eu.
E assim sem grandes papos a beijei. Assim sem muito tempo depois já estava em sua casa. Tudo aconteceu muito rápido e mais do que rápido, meio inodoro, meio incolor, meio sem gosto. Depois daquele ápice em sua cama, ela quase a dormir, perguntei sem esperar resposta, já que meus olhos pesavam.
- Qual é seu nome mesmo?
- Hm?
- Qual é seu nome? - já não conseguindo mais diferenciar o que era sonho da realidade.
- Jaqueline.
Senti o mundo girar algumas vezes durante os dois segundos de silêncio em que ambas se calaram.
- E o seu?
Resmunguei.
- E o seu nome, qual é?
- Manuela.
- Hm.
Adormeci.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Telefone sem fio

- Vocês podem fazer em duplas ou trios.
- Vem Manu - falou Renata se aproximando de mim.
- A gente podia chamar alguém pra fazer isso com a gente, o que você acha? Alguma menina nova aí.
Ela sorriu.
- Agora você ta interessada em meninas novas? - me olhou.
- Ué, temos que revigorar as forças né?!
- E a pele.
- Nesse final de semana a Débora não vai ficar em casa, tenho que arranjar alguma companhia pra mim, sabe como é, fico muito sozinha naquele lugar tão grande.
Riu - sei como é. Eu não te falei né? Ontem Manu do céu, eu fiquei com a menina mais linda que eu já vi na minha vida, você não faz ideia!
- Ah é? Onde?
- Eu fui de última hora na casa de uma amiga minha que você não conhece.
- E você nem me chama né?!
- Foi de última hora Manu, nem eu sabia.
- Hm.
- Linda Manu, linda.
- E aí?
Ela concordou com a cabeça, nem precisava perguntar mais nada.
- Por isso que cheguei atrasada hoje, aquela menina me deu um cansaço que você não pode i-ma-gi-nar.
- Meninas, vocês precisam de ajuda? - perguntou a professora que certamente escutara pelo menos metade da conversa.
- Não professora - sorriu Renata displicentemente - tudo sob controle!
Ela lançou um olhar estranho para Renata que o revidou.
- Você não pegou ela né?! - perguntei depois que tive certeza de que ela não nos ouviria mais.
- Claro que não Manu! - soltou uma gostosa gargalhada - mas acho que essa mulher aí deve fazer loucuras na cama.
- Que coisa Rê, ela é nossa professora.
- Ela é uma mulher de no máximo trinta anos. Isso é flor da idade.
- Mas ela nos dá aula Rê.
- Adoro aprender coisas novas.
Divertia-se da minha cara.
- Posso me juntar a vocês? - perguntou uma menina muito pequeninha de cabelo ruivo e muito curtinho.
- Claro - falou Renata sem hesitar.
Sorriram uma para outra.
Depois de fazer um trabalho muito mal feito, mais conversamos do que qualquer outra coisa, Renata já havia conseguido todos os dados da menina, inclusive arrancar de sua boca que ela estava solteira, que tinha saído há três meses de um namoro com uma pessoa, assim mesmo, sem gênero definido.
Fomos para o RU falando sobre a menina.
- Oi meninas! - Yumi se aproximou de nós, também entrando na fila.
- E aí Yumi, o que você está fazendo aqui? - perguntou Renata.
- Eu estudo aqui perto né?!
- Ah é...
- Tudo bem Manu?
- Sim e com você?
- Tudo bem, como foi a festa dos solteiros? - continuava a me olhar diretamente nos olhos.
- Ah tava boa... Nada de mais.
- Como assim nada de mais Manuela? E aquela mulher maravilhosa que você pegou foi o que? - interrompeu Renata.
- Ah, nada de mais.
- Nada de mais? Você e ela sumiram, fiquei sabendo que você foi dormir na casa dela e tudo! - ela se divertia ao me ver constrangida na frente de Yumi. Yumi me olhava apertando seus olhinhos, fazendo com que eles lhe parecessem quase inexistentes.
- É Manu?
- É, fiquei com uma menina aí - respondi olhando para os lados, pegando uma bandeja.
Quando encontramos alguma mesa pra lugar de três pessoas, havia um menino ocupando um dos lugares, Yumi começou o que parecia ser mais um interrogatório.
- Então você pegou uma mulher?
- Um mulherão - completou Renata.
- É, fiquei com uma menina.
O rapaz que dividia a mesa conosco nitidamente parou de comer para prestar atenção em nossa conversa.
- E qual era o nome dela?
- Ah, que pergunta.
Ela sorriu sem muito ânimo.
- Você não sabe o nome dela?
- Sei né Yumi, não costumo ficar com as pessoas sem saber seu nome.
- Então qual é o nome dela? - repetiu.
- Agora me esqueci - sorri encabulada.
Yumi riu desacreditada. Renata e o rapaz se divertiam com a minha tentativa de lembrar o nome da menina.
- E você foi dormir na casa dela?
- Acabei indo, ela não tava muito bem.
- Sei.
Renata e o rapaz a cada nova resposta minha riam com mais vontade.
- Ah, dormi né.
- Dormiu sem perguntar seu nome?
- Eu perguntei né Yumi.
- Então?
- Eu só me esqueci - não consegui conter meu sorriso acompanhando os dois.
Yumi continuava séria.
- E vocês transaram - fez uma pausa - sem você nem conhecer a menina?
Renata largara seus talheres pondo suas mãos em frente a boca para abafar a risada. O rapaz fingia um acesso de tosse.
- Mas eu conheci ela.
- Quando?
- Na festa!
- Ai Manu!
- Ai o que?
- Sei lá. E você pegou o telefone dela também, já marcaram de sair de novo?
Ri.
- Que perguntas são essas?
- Só quero saber, só isso.
- Eu peguei o telefone dela, mas fiz questão de apagar.
- A é? Foi tão ruim assim?
- Não, primeiro porque não saberia por quem perguntar caso ligasse. Já pensou? Oi, aqui é a Manuela, sabe? A gente dormiu juntas domingo passado, lembra?
- E ai a mãe dela responde: dormiram juntas? Você ta falando da minha filha? Ela disse que tava estudando ontem a noite na casa de uma amiguinha - interrompeu Renata rindo muito, engasgando-se com o suco.
- É mais ou menos isso. E em segundo lugar porque não acho que ela me agregará qualquer coisa a mais.
- A mais do que uma noite de sexo com uma estranha.
- Até parece que você nunca fez isso Yumi.
Ela se calara.
Sorri vitoriosa.
- Bom, mas pelo visto a festa foi boa. Pelo menos isso. E você Renata, também foi parar na cama de uma qualquer?
- Na festa não, mas ontem Yumi... Fiquei com a menina mais linda do mundo.
Yumi olhava para nós duas incrédula.
- E você pelo menos sabe o nome dela?
Ela ficou em silêncio, e riu após Yumi soltar um suspiro de desaprovação.
- Claro que sei né Japa, o nome dela é Amanda... Ou será que é Natália?
Ria-se de Yumi.
- Ah, vocês duas tão me fazendo de boba.
- E como foi o teu final de domingo Yumi? - perguntei tentando mudar enfim de assunto.
- Foi um saco!
- O que você fez?
- O que eu não fiz você quis dizer né? Deveria ter ido com vocês na festa! Fiquei esperando até tarde que a Jéssica me ligasse, mas ela aparentemente se esqueceu.
- Olha Yumi, termina esse namoro antes que ela queira morar junto com você - Renata se divertia - no começo elas parecem assim, não se importar com nada, esquecer de certas coisas, daí quando você reclamar que ela está sendo muito displicente com você, ela vai entender que você está completamente apaixonada por ela, e vai te pedir em casamento, com direito a papagaio e tudo.
O rapaz ria agora sem esconder.
- Desde quando você tem experiência com relacionamentos Rê? - perguntei.
- Desde quando eu tenho experiência com o rompimento de relacionamentos antes de começarem! Mulheres sempre se enganam em relação aos sentimentos. Acham que estão apaixonadas só porque a menina lhe dá atenção.
Entendi que este seu último comentário fora diretamente pra mim, mas me fiz de desentendida.
Saímos da mesa e o rapaz ainda não havia terminado de almoçar, quase nos deu tchau quando enfim nos levantamos.
Depois do trabalho, de um belo banho, já deitada na cama lendo um livro, meu celular tocou. Era Yumi.
- Oi Japa.
- Oi.
- Tudo bem?
Débora entrara no quarto.
- Tudo e com você.
- To bem.
- O que tava fazendo?
- Nada de mais, pode falar.
- Não ta a fim de vir aqui em casa?
- Hoje?
- Porque o espanto de hoje?
- Ué, porque não estamos no final de semana...
- Se você não quer vir é só falar, não precisa me dar essas desculpas esfarrapadas.
- Nossa Yumi, o que te deu?
- Não deu nada.
- Não vou poder ir aí porque tenho aula muito cedo amanhã de manhã e ainda tenho que terminar de ler um livro. Aliás, começar né?! - soltei uma risadinha que foi abafada pelo seu suspiro.
- Sei.
- É bom estudar só pra variar sabia?
- Eu precisava de uma ajuda aqui no PC.
- Então é pra isso que você quer que eu vá?
- Também.
- Agora ta me usando é?
Percebi que Débora passara a prestar atenção na minha conversa.
- Eu te usando? Imagina - riu.
- E você ainda assume que é só pra isso? - falei brincando.
Continuou rindo.
- É... só pra isso que quer minha companhia.
- Sério Manu, eu precisava fazer um negócio aqui e não to conseguindo.
Depois de algumas explicações sobre o programa que ela queria usar, ficamos em silêncio.
- Viu, nem precisei sair da minha caminha quentinha pra te ajudar.
- Mas queria que você viesse - senti meu coração bater mais rápido.
- Pra que?
- Porque você é minha amiga poxa, que pergunta é essa agora?
- E a Jéssica?
- Porque você sempre insiste em perguntar dela?
- Porque você namora com ela.
Débora tossiu sem conseguir conter com as mãos.
- Mas não somos siameses né?! Cada uma tem a sua vida.
- Pelo visto as coisas não tão boas né?!
- Tão sim Manu, às vezes parece que vocês querem que eu termine meu namoro.
- Vocês quem?
- Você, Renata, Carol.
- Então não sou só eu que acho que a Jéssica é um saco.
- Hei, não fale desse jeito da minha namorada!
- Não to falando.
Ficamos novamente em silêncio.
- Jaqueline.
- Que?
- Jaqueline.
- Quem é Jaqueline?
- A mulher que a gente tava falando hoje no almoço.
- A que você ficou na festa?
- É, lembrei agora do nome dela.
- Então você fez mal em não ter pego o telefone dela. Porque agora que você sabe o nome dela poderia ligar sem medo.
- É, vai ver que eu fiz mesmo.