quarta-feira, 6 de maio de 2009

Negativo

Patrícia nos poupou de um encontro pós-beijo. Não nos vimos durante vários dias. Ela faltara a aula. Se eu bem a conhecia, provavelmente não queria encarar aquilo que estávamos passando. Ela voltara a ir nas aulas, mas começou a me ignorar. Não atendia meus telefonemas, passava por mim pelos corredores da escola e fingia não me ver. Começou a andar com outras meninas. Todas pensaram que tivéssemos brigado, porque sempre estávamos juntas. Depois de vários semanas me ignorando, tornara-se insuportável ficar longe da sua companhia. Quando o intervalo começara, chamei-a e puxando-a pelo braço, não dei chance dela escapar de mim. Fomos para um lado mais reservado do pátio.
- Até quando você vai me ignorar?
- Eu não estou te ignorando Manuela.
- Não? Desde quando você me chama de Manuela?
- Não é o seu nome?
- Pati, pelo amor de Deus não faz isso comigo!
- Não estou fazendo nada com você - falou ela ríspida olhando para os pés.
- Nós não estamos mais conversando.. Você acha isso normal?
- Acho que as pessoas vem e vão.
- E eu sou isso, uma pessoa que se foi?
Ela permanecera em silêncio.
- Olha pra mim Pati, por favor. Eu não tenho culpa do que aconteceu.
- Não aconteceu nada, ok? - ainda sem olhar nos meus olhos - aquilo.. Aquilo não poderia ter acontecido!
- E você sabe o que aconteceu? Eu não sei, queria conversar com você para tentar entender. Poxa vida, somos amigas a tanto tempo.
- É exatamente isso, somos amigas. Amigas não se.. - ficara em silêncio novamente, dessa vez ruborizando.
- Eu não quero perder a sua amizade, você não falou que seríamos amigas para sempre?
- E somos ainda.
- Então vamos apagar isso que aconteceu - falei já desesperada para que ela olhasse nos meus olhos - vamos voltar a ser como éramos.
- E esquecer daquilo? - perguntou agora olhando para a pracinha onde tinham crianças pulando corda.
- É! Voltarmos a ser como éramos antes.
- Impossível - falou indo em direção a sala de aula.

domingo, 3 de maio de 2009

Antes do dois

Desde o episódio em que quebramos o quadro da tia Med já havia se passadoe quase 5 meses e esses momentos em que ficávamos inesperadamente constrangidas uma com a outra se repetiam com maior freqüência. Às vezes nossas mãos se encostavam e ficávamos paradas apenas sentindo aquela coisa estranha que começava pelo coração e ia descendo pela barriga. Nós que sempre contávamos tudo uma para a outra, nem sequer tocávamos nesse assunto. Achava que talvez aquilo fosse tão normal que era por isso que nem conversávamos sobre. Cada dia as sensações aumentavam e ficava mais difícil de entender o que se passava. No começo da oitava série, ainda com treze anos, nos distanciamos um pouco. Era muito complicado lidar com aquela bomba de emoções. Mas sempre que nos víamos, aquela coisinha que parecia já ter terminado, voltava com mais vontade do que antes. Assim fomos levando até o dia do meu aniversário. Estavam poucas pessoas na minha pequena festa que ocorrera na própria casa da tia Med. Todos já tinham ido embora, e Patrícia e eu fomos para o quarto ver novamente os meus presentes. Não acreditando que tia Med havia me dado uma Barbie, mesmo sabendo que eu não gostava de brincar com ela, nossas mãos se tocaram ao pegar a caixinha que ela viera. As duas ficaram envergonhadas, mas continuaram na mesma posição, sem se mexer. Resolvi me aproximar dela, sem pensar em mais nada. Meu coração já não estava mais dentro de mim, poderia estar em qualquer lugar, provavelmente na minha garganta pois não conseguia falar nada. Ela permanecia me olhando, com um brilho estranho no olhar. Esse brilho que agora aparecia sempre que estávamos juntas. Não sabia dizer quem estava mais nervosa, nossas mãos tremiam tanto, mas talvez justamente por isso a caixinha não aparentava estar se mexendo, uma mão anulava a outra. Era difícil controlar minha respiração. Meu coração eu já tinha perdido o controle. Ela fechara seus olhos, se aproximando de mim. E assim, naquele jeito, sem conseguir controlar meu coração nem minha respiração, com a mão suando de nervosismo, com meu coração batendo mais forte ainda, com minha vergonha dando espaço para minha vontade, levei minha boca até a dela. Era o primeiro beijo que eu dava em alguém. Era o primeiro beijo que ela dava em alguém. Era o nosso primeiro beijo. Sua boca estava quente e úmida. Ao sentir sua língua na minha estremeci. Concordo que foi desajeitado, mais saliva do que qualquer outra coisa, afinal enquanto nossas coleguinhas estavam lendo Capricho e aprendendo as 25 formas de beijar, nós estávamos jogando futebol na rua. Nossos dentes se tocaram de leve, nosso nariz se tocou de leve. O beijo foi longo, levou o tempo suficiente para meu coração sair da garganta e descer para barriga. Nossas mãos ainda seguravam firme o pacote de presente. Após o beijo ainda fiquei com os olhos fechados. Ficamos paradas a poucos cm de distância uma da outra. Sentia que ela também estava de olhos fechados. Permanecemos assim durante muito tempo. Abrimos nossos olhos ao mesmo tempo, mas a timidez de Patrícia tomou conta dela, e ela saiu correndo quarto a fora. Aquela noite foi especialmente diferente. Tirando o medo, pânico mesmo, nervosismo e o pavor do acontecimento, ainda achei o melhor presente de aniversário que poderia ganhar. Mesmo não entendendo absolutamente nada do que estava acontecendo com a gente, talvez as aulas sobre sexualidade estavam demorando de mais para ocorrerem, eu não conseguia parar de pensar naquele beijo. E sentia que precisava entender o que se passava com a gente. Eu havia dado o meu primeiro beijo e enquanto as outras meninas na escola sonhavam com o príncipe encantado, meu príncipe era uma... uma princesa? Como seria chegar na aula no outro dia e ter de encarar Patrícia?

O botão que se abriu

Eu tinha lá meus treze anos. Depois da aula de manhã sexta-feira, como sempre fazíamos, fomos almoçar no restaurante da tia de Patrícia. Fomos para minha casa olhar televisão e conversar, como também era de costume. Mas naquele dia havia acordado diferente. Naquele dia havia sonhado com Patrícia, mas era um sonho diferente. Nele nós nos beijávamos. Fiquei muito tempo pensando naquele sonho, e estava me sentindo mal em ficar perto dela. Ela estava feliz que as férias de julho haviam chegado que nem percebera a minha distância. Tentando me chamar atenção, tocou um travesseiro em mim, e logo começara uma guerra, valia tudo, travesseiro, estojo, mochila, até quebrarmos um quadro que estava pendurado na parede. Era um dos quadros que minha tia havia pintado, sabe aqueles quadros de flor?, aqueles mesmo que todo mundo sabe fazer, de flores que nem existem, e que com misturas de cores, acabam por ficar até que bonitinhos? Pois então, e era um dos preferidos da tia Med. Tentamos desesperadamente consertá-lo, mas não conseguindo começamos a rir sem parar, já consoladas pelo castigo próspero. Nunca me esqueço, ela estava com seu habitual jeans surrado (na época que não era vendido na Renner e C&A), All Star (na época que emos ainda não usavam All Star) e camiseta branca (na época que todo adolescente tem de gostar de Ramones e de querer ser rebelde). Ao ouvir a porta se abrir, sabendo que era minha tia chegando, deitamos rapidamente na cama e fingimos estar olhando o filme que passava na Sessão da Tarde. Tia Med entrou no quarto e deu seu oi de sempre: sem vontade e sem graça. Quando ela fechou a porta desandamos a rir novamente. Dessa vez nossos rostos se tocaram e ficamos nos olhando. Senti pela primeira vez o meu coração bater acelerado e minhas mãos gelarem, suando frio. Tentei fazer força para achar que era porque havíamos quebrado o quadro. Ficamos em um silêncio nervoso durante alguns minutos.
- Eu quero ser sua amiga para sempre Manu.
- Mas nós vamos ser - falei tentando disfarçar meu nervosismo pela situação.
Tia Med entrou no quarto para perguntar se nós queríamos pipoca, que naquele dia ela estava muito boazinha. Demos um pulo na cama tão grande, que ela pensou que estávamos aprontando alguma coisa. Logo descobriu que o quadro estava em mil pedaços. Fiquei de castigo durante uma semana. Justamente nas férias. No primeiro final de semana já sentia muito a falta de Patrícia. Ela conseguiu me visitar terça-feira a tarde. Esperando minha tia sair, para sua habitual ida à Igreja onde ajudava na paróquia, tocou pedrinhas na minha janela para me chamar. Ficamos conversando a tarde inteira, dessa vez fiz questão de não ficar muito perto dela. Estava com medo das coisas estranhas que sentia quando ficavamos perto. Nunca havia conversado com ninguém sobre gays. Para mim isso era coisa de televisão. Sabia que existia, mas não sabia o que era. Por isso não sabia dizer para ninguém o que eu sentia e também não sabia se era recíproco. Talvez isso fosse normal. Era? Mas porque nunca havia ouvido nenhuma das minhas colegas falarem disso? Um pouco antes da minha tia chegar, nos despedimos rapidamente para ela não ver Patrícia. Quando ela me deu um beijo no rosto senti que suas bochechas estavam vermelhas. Saiu correndo com o pretexto de que tinha visto uma mulher parecida com Med. Era estranho mas meu coração batia forte, e dessa vez sabia que não era por causa da minha tia.

A lua nova

Fui criada por minha Tia que por não ter mais minha mãe para culpar, transformava toda sua raiva pelo casamento de seu irmão em mim. Colocava a culpa que ela dizia ser da minha mãe tinha pela morte do meu pai em mim. Tudo de ruim era minha culpa, inclusive a vida dela não ter dado certo, como se eu, uma pivetinha de cinco anos pudesse fazer muita coisa por uma mulher já viúva, e agora sem irmão nenhum para aturar suas maluquices. Fiz questão de esquecer tudo que pude dessa minha infância turbolenta, mas havia certas coisas que eu conseguia lembrar com toda a clareza do mundo. Um coisa em espcial. Na verdade uma pessoa.
Lembro que quando coloquei os pés na casa da minha tia, vi pela janela do meu quarto uma menina jogando futebol com vários meninos na ruazinha de paralelepípedo. Fiquei acompanhando seus movimentos, ela certamente era a melhor jogadora dali. Driblava os meninos com muita facilidade, da mesma forma como eles ficavam visivelmente bravos com ela. Eu também gostava de jogar futebol, mas não jogava tão bem quanto ela. Fiquei olhando aquele jogo durante vários minutos, perdendo um pouco da noção de tempo alí. Era lindo ver como aquela menina jogava tão bem. Tomando coragem desci as escadas e fui para a rua ver se pelo menos poderia olhar o jogo mais de perto. Me sentei no cordão da calçada e logo a menina se aproximou de mim.
- Oi - disse ela com o rosto vermelho e suado de tanto jogar.
Mas me senti intimidada por ela e vendo que os meninos também estavam se aproximando de mim saí correndo para dentro de casa. Eu era a filha única, nunca tive muitos amigos. Era só o meu pai e eu. Minha mãe estava sempre atrás de emprego, entrevistas, já que como ela mesma dizia, não podemos comer nossos sonhos. Tinha medo de outras pessoas, tinha medo de conhecê-las. Toda a tristeza da perda do meu pai e da minha mãe me tornaram uma criaça introvertida e minha tia não ajudava nem um pouco com isso. Mas uma semana depois de ter chegado, resolvi tomar coragem e ir pedir para jogar com os meninos. Com 10 anos a menina e eu não desgrudávamos mais. O nome dela era Patrícia. Minha tia não gostava de me ver sempre suja, jogando futebol, correndo com os meninos. Na época em que as menininhas faziam o grupo da Luluzinha, Patrícia e eu est[avamos correndo por aí, roubando goiabas do vizinho, caçando passarinhos. Foi mais ou menos nessa época que aprendi a não ter vergonha das coisas. Aprendi é modo de dizer, coloquei na minha cabeça. Pois já que estava sozinha no mundo, eu precisaria estar mais comigo, e para isso precisava deixar meus medos para depois. Começava a entender o que meu pai havia me falado naquela noite de lua cheia. Lutar pelas coisas que acreditamos.

O copo que se quebrara

Tudo começara quando cheguei à cidade. Meus pais eram ambientalistas. Meu pai na verdade, José era seu nome. Ele acreditava na natureza. Ela por si só, sozinha, a criadora de tudo, a base pra todos, o cenário único e verdadeiro do mundo. Minha mãe estava se formando-se em jornalismo, mas também acreditava num mundo melhor. Eu tinha mais ou menos 5 anos. Ainda muito pequena não tinha noção do mundo à minha volta. Percebia que algo estava acontecendo, e não era bom. Muitos anos depois descobri o que aconteceu.
José era um dos presidentes de uma ONG que criaram para proteger as matas da região onde morávamos. Mas os proprietários de terra não eram de acordo, pois tinham inúmeras madeireiras clandestinas espalhadas pelo Estado, principalmente concentradas onde a ONG trabalhava. Meu pai já havia recebido inúmeras ameaças de morte, mas quanto mais passava o tempo, mais ele achava que podia melhorar o mundo e mais empolgado ele ficava ao conseguir documentos e provas, para juntamente com o governo dar um fim naquilo tudo. Porém se deu conta tarde de mais que os principais donos de terra não estavam para brincadeira, e que iriam fazer o que fosse preciso para acabar com a ONG dele. Tentamos fugir para a praia, para a casa de um amigo dele, o Rogério. Ele também fazia parte da ONG, foram os dois que iniciaram o que seria a maior ONG da região na época e que ainda hoje continuava a lutar pela natureza. Em uma semana em que ficamos na casa de Rogério, que era um advogado recém saído das fraldas, as ameaças desapareceram. Pelo menos eu não acordava mais a noite ouvindo o telefone tocar, e minha mãe ir à cozinha buscar um copo de açúcar para meu pai. Muitas vezes era eu quem ia buscar esse copo, mas não entendia o que se passava. Minha mãe sempre me dizia que uma hora eu ia ficar sabendo do que se tratavam os tais telefones que insistiam em acordar todo mundo no meio da madrugada. Foi numa noite de lua cheia, que a profecia que tanto rogava os tais telefones aconteceu.
Meu pai chegou em casa mais nervoso do que o normal, mal havia entrado e já me convidou para sairmos e darmos uma volta. Fomos para a beira da praia, ele me mostrou a lua. Ela estava absolutamente linda, dava a impressão de que ela era maior do que eu. E que se esticássemos o braço, poderíamos tocá-la. Ele me falou muitas coisas que muito tempo depois eu fui entender. Ele disse que eu e a minha mãe Luli éramos as pessoas que ele mais amava na vida, mas que para nós podermos viver melhor ele precisava sacrificar certas coisas. E ainda sem eu entender ele disse que se algum dia quisessem tirar os meus sonhos de mim era para eu ser forte e nunca deixar que os tirassem. Que era para lutar até o fim pelas coisas que eu acreditava, se elas fossem corretas e do bem. Que poderíamos perder muitas coisas e sofrer, mas que se fosse um sonho de verdade e importante para mim, valeria a pena lutar sem desistir. Talvez ele soubesse que naquela noite seria assassinado. Provavelmente as ligações passaram a ser visitas pessoais. Como eles haviam descoberto onde estávamos morando, eu não sei. Mas lembro que quando chegamos em casa, pouco tempo depois a campainha tocara. Vi meu pai sair e nunca mais ele voltou. Ficamos sabendo da sua morte ainda de noite. Pensei que fossem aqueles telefonemas de sempre, e já fui para a cozinha buscar um copo de água com açúcar. Quando cheguei na sala onde o telefone se encontrava, minha mãe estava chorando desolada. Dessa vez o copo que eu preparara com água e açúcar fora para ela. Meu pai já não podia mais bebê-lo.
Rogério estava em outra cidade em uma reunião da ONG, logo que ficou sabendo veio nos ajudar. Minha mãe sabia que a próxima ia ser ela e me mandou para a casa da minha tia Med, que ficava em outra cidade, longe da praia. Minha tia nunca quis me aceitar morando lá. Culpava a minha mãe pela morte do seu irmão. Ela nunca quis que meu pai se casasse com a minha mãe, porque os dois acreditavam no quase impossível. Nunca mais vi minha mãe. Rogério que também se mudara para a mesma cidade que eu, de vez em quando me dava notícias sobre ela. Ela estava escondida junto com o resto do pessoal da ONG em uma outra cidade. Ela morrera poucos meses depois da morte do meu pai. Dizem que as pessoas podem morrer de tristeza. Acredito que para ela não havia mais motivo para viver sabendo que o grande amor da sua vida já havia indo embora para nunca mais voltar.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

De volta ao passado

Com a janela aberta, me acordei com o sol no meu rosto. Percebi que havia um peso diferente em cima de mim, era a perna direita de Yumi sobre as minhas e o braço direito com a tala estava em cima da minha barriga. Fiquei pensando que horas ela havia se deitado ao meu lado. E jurei que nunca mais beberia novamente, apesar de que se sempre fosse assim, acordando ao lado de uma mulher bonita...
Quando me levantei senti uma pontada forte na cabeça. Fui ao banheiro e ouvi conversas na sala, deveriam ser os pais de Yumi. Mas provavelmente eu não estava apropriadamente arrumada para me apresentar a eles. Escovei meus dentes com pasta e dedo e lavei meu rosto com água gelada. Voltando ao quarto senti o cheiro forte de cerveja pairando pelo ar. Recolhi algumas latinhas que estavam espalhadas pelo quarto. Precisava ir para casa, estava faminta e precisava começar a ler os livros da lista do Professor Olavo, mas sem dinheiro seria difícil chegar. Aproveitando que o computador estava ligado, verifiquei meus e-mails. Nada. Entrei no meu orkut e os recados eram aqueles de mulheres semi-nuas, propagandas e mais propagandas. Só um me chamou atenção, que era do André. "Eii meniinaa. Você não faz idéia de como estão as coisas aqui. Em uma semana que você está fora, várias coisas aconteceram. Sexta que vem eu vou ir praí. Me avise como faço para te encontrar. Bjs srta Manuelita".
Provavelmente os acontecimentos que ele estava se referindo era entre ele e o Beto. Estava impaciente e com uma forte dor de cabeça que ligeiramente me deixava enjoada. Após quase uma hora de espera Carol foi a primeira a acordar. Deitada no chão, me tocou um dos vários ursinhos (sapinhos) que estavam ao seu lado para me chamar.
- Já de pé Manu? Você é acostumada a acordar com as galinhas, né?
- Perdi o sono..
- Que horas já são?
- 12:58 - respondi.
- Daqui a pouco temos que ir, tenho uma trabalho para terça, é muito grande.
- Por mim, a hora que você quiser ir eu vou. E como foi a conversa com a Ma?
- Nem me fale - disse passando as mãos pelos seus cabelos - vocês duas dormiram e eu fiquei até às 4:30 brigando com ela.
- Mas resolveram alguma coisa?
- Nada. Disse que era melhor darmos um tempo, ela aceitou e saiu do MSN me deixando falando sozinha.
- Ah, que chato isso!
- Chata é ela - riu - Eu sei que hoje eu vou para balada, com ou sem ninguém. To precisando espairecer.
- Sei. Nós poderíamos ir lá no tal bar que vocês tanto falaram né? Estou curiosa.
- Pode ser, hoje a festa lá é melhor ainda!
- Opa! Já estão planejando um festa sem mim? - perguntou Yumi enquanto se espreguiçava.
- Você não vai sair com a Jéssica hoje?
- Que sair nada, Carol. Ela está me enrolando para nos encontrarmos.
- Então ela é para ser a sua namorada virtual Danielli? - perguntei não contendo um sorriso.
- Não Manu, já disse que namoro não existe no meu vocabulário! Ela é uma amiga.
Carol e eu rimos.
- Bom, eu tenho que ir nessa Mi, que tenho muita coisa para fazer e ainda quero sair hoje à noite. Vamos Manu?
Fui apresentada rapidamente aos pais de Yumi, enquanto saíamos do apartamento.
Nossa ida até a faculdade foi engraçada, Carol era muito divertida. Não sabia como ela conseguia ser assim depois de ter brigado com a namorada dela. Talvez estivesse querendo fingir que estava tudo bem para não ficar triste. Não era só ela que estava fazendo isso. Eu também estava. Nessa semana procurei não pensar em Patrícia, muitas vezes consegui, mas enquanto falávamos sobre namoro e meninas, lembrei-me dela com mais intensidade. Ela ainda não viera falar comigo, nem André falara nada sobre ela para mim.
Fui o caminho todo em silêncio, me lembrando de como tudo havia começado. De como era bom quando tinha mais do que lembranças de Patrícia.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Um cerveja, duas cervejas, trê-s cer-v-e-jas.

Abri meus olhos não reconhecendo onde estava, mas vi que estava sozinha no quarto e já havia ficado escuro. Peguei meu celular, eram 21:30. Havia uma chamada não atendida. Era a Débora. Então me lembrei que havíamos combinado de almoçarmos juntas. Olhei a hora da chamada, ela tinha ligado às 18h.
- Oi Débora.
- Menina onde você se meteu? Te esperamos até às 14h para almoçar.
- Me desculpe, é que encontrei - Danielli entrou no quarto - encontrei uma amiga e ficamos conversando.
Danielli arrumada já, com os cabelos preto liso soltos, pouca maquiagem, calça jeans, uma sandália rasteira e uma blusa. Ficou me olhando enquanto falava com Débora.
- Ficamos preocupada com você! Não vi você com aqueles dois meninos e a japonesinha de sempre.
- Então, dessa vez me safei do trote - sorri olhando para Danielli.
- Você vem quando? As meninas e eu estávamos pensando em ir para algum barzinho, tomar alguma coisa por aí.
- Eu não sei ainda para onde eu vou - dessa vez Danielli sorriu de volta - to esperando a boa vontade da minha amiga para me levar em casa.
- Se você mudar de idéia me avisa ok?
- Beleza - e virando-se para Danielli fale - Não acredito que dormi aqui.
- Você estava dormindo, eu não ia te acordar.
- E conseguiu arranjar um jeito para eu voltar?
- Sim madame, falei com a Carol, ela vai passar aqui daqui a pouco. A Ma ainda quer tomar banho e se arrumar.
- Que bom - falei mais aliviada.
- E aí, vai querer ir para a festa com a gente?
- Eu topo, mas também não vou poder ir assim né? Estou suada, suja, fedendo.
- Nem se preocupa que a Ma demora horas para se arrumar.
Vendo meu olhar sobre sua blusa perguntou:
- E eu, to bem assim?
- Está ótima! - sorri olhando para o lado. Fazia realmente muito tempo que eu não fazia isso.
- E seus pais já chegaram? - rapidamente ainda falei.
- Chegaram e já saíram. Hoje terá um jantar de uns amigos deles.
- E seu irmão?
- Já saiu para a casa da sua namorada.
- Mas e minha mochila que ficou lá?
- Nossa! Esqueci completamente disso. Mas não se preocupa que segunda eu te devolvo.
Danielli era levemente magra. Seus cabelos passavam um pouco dos ombros. Tinha um certo quê de moleca.
- Essa minha sandália está machucando - disse enquanto tirava-as de seu pé. Me alcança ali, meus tênis. Aonde nós vamos todo mundo vai sem se importar muito com as roupas - sorriu.
- Que bom, até porque não gosto muito de saltos e super vestidos.
- Ah, mas de vez em quando tem que usar né?
- Mas isso não quer dizer que eu goste né?
- Você deve ficar engraçada de salto.
- Por quê?
- Porque você não tem cara de quem usa salto.
Nos 20 minutos que ficamos esperando a Carol ela trocou de roupa 5 vezes, tirando a blusa que não estava passada, a outra que era muito grande e a que ela queria usar mas estava suja. Resultado, ficou com a mesma que saíra do banho. E eu não pude deixar de reparar que seu corpo, ou o pedaço que eu vi dele, pois estava tentando não dar tanto na cara assim, era absolutamente lindo. Ela tinha uma tatuagem que ia do ombro esquerdo até a metade do braço, outra nas costas na altura do umbigo que descia até encostar na sua calcinha. Era um dragão, meio clichê pensei, mas vai saber.
O interfone tocou, era a Carol. Pela expressão do rosto de Danielli alguma coisa ruim acontecera. Ela estava subindo. Danielli foi abrir a porta, enquanto vinham para o quarto ouvi:
- Ela sempre faz esse tipo de coisa, sempre! Eu podia me bater nela, de tanta raiva. Eu não tenho culpa, mas que merda! - gritava Carol. Quando entrou no quarto vi que seus olhos estavam vermelhos, talvez de chorar.
- Eu tenho culpa que aquela filha de uma égua tem 15 anos e porque agora virou modinha ela acha que gosta de meninas e fica se vestindo de Avril Lavigne? Querendo provocar a Maria, só ela que não entende isso, que é só provocação. Briga de primas, e ela cai!
- Calma Carolzinha, calma - dizia Danielli enquanto tentava inutilmente fazê-la parar de andar de um lado para o outro.
- Calma o cacete! Você quer que eu vá lá bater nas duas? Não, né? Então deixa eu falar.
Eu tentava entender o que estava acontecendo e para tentar ajudar fui à cozinha buscar um copo de água.
- Eu não quero água Manu, eu quero bater em alguém - mas em seguida tomou o copo da minha mão e em um só gole esvaziou-o.
- Foi a Adriana de novo?
- Ela, sempre ela e sempre sou eu que me ferro.
- Mas isso já não tinha acabado?
- Essa vez não fico só no papo, ela veio pra cima de mim.
- Carol, eu não to entendendo.
- Foi assim Mi, estávamos lá na casa da mãe da Ma, como fazemos sempre, só que a prima dela tava lá. Eu mal tinha chegado e ela já começou a ficar brava comigo porque a prima dela tava lá, como se eu tivesse alguma culpa nisso. - Sentou-se na cama, suas mãos tremiam. Fiquei em pé do lado de Danielli. Ambas estavam paradas olhando-a sem saber o que fazer.
- O almoço já começou uma merda, a mãe dela percebeu que a Ma estava grossa comigo, perguntou o que aconteceu, ela ficava dizendo que nada. Beleza, até aí era a Ma de sempre. Mas depois do almoço ficamos nós três no quarto da Ma, conversando e olhando tv. A Maria foi se arrumar para sairmos e, a menininha e eu ficamos sozinhas no quarto, ela veio falando que eu estava muito bonita, que fazia tempo que nós não conversávamos, se eu tinha reparado na saia dela, já fazendo uma voltinha na minha frente. A menina não é bonita cara.. Se ainda fosse - nessa hora soltou um sorriso nervoso - mas ela não é. Eu comecei a desconversar, mas ela continuou falando e deitou do meu lado, eu me levantei, perguntei se ela não tinha vergonha na cara, ela disse que não tinha vergonha de nada, filha da mãe - gritou - não tem vergonha de ouvir essas merda de música? E veio querer deitar em cima de mim, eu empurrei ela, ela sorria mais ainda Mi e Manu, eu podia bater nela, por muito pouco. Poxa eu só me ferro por causa dela, e o clima entre a Ma e eu tava tão gostoso antes, tava tudo indo tão bem. Aí ela veio perto de mim de novo, e tentou me beijar, e claro que a Ma tinha que aparecer nessa hora. Sério que me senti na Malhação, só faltou a porra da música do Charlie Brown tocar e aparecer os comerciais. Deu um escândalo muito foda. A Ma começou a gritar, e ao invés de ir tirar satisfação comigo, ela foi pra cima da Adriana, gritando, chamando ela de tudo, e eu tentando separar as duas,e a Ma começava a me dar tapas também, subiu mãe, tia, pai, vô lá pra cima pra ver o que tava acontecendo. Um fiasco, que raiva! - bateu com a mão em cima da cama - que raiva. Hei, Manu, lá na sua terra não tem remédio contra raiva?
Fiquei quieta sem saber se era pra responder ou não. Por sorte não falei nada, ela continuava a falar:
- Um fiasco, um fiasco, já não era mais malhação, era digno de novela das 8. O pessoal acreditou em quem? Na pobre mocinha de 15 anos que foi assediada pela namorada da prima, ou pela namorada da prima que já é maior de idade, que faz curso de louco? Fui expulsa de lá com a ameaça ainda da mãe da menina dizendo que ia me denunciar na polícia, acredita que chegou a esse ponto? Só o pai da Ma que acreditou em mim, quando a mãe da menina veio querer apontar o dedo na minha cara e vir pra cima de mim, o pai da Ma me pegou e me levou para a rua. Disse que só ia me perguntar uma vez o que tinha acontecido, eu expliquei, ele disse que sabia como era a sobrinha dele, todo mundo passava a mão por cima da cabeça dela. Disse que era segredo, mas que ela já viera pra cima dele também, querendo provocá-lo. Ele disse que era por isso que não gostava da irmã da mulher dele. Porque todos paparicavam aquela pivetinha! Quem diria hein Yumi? O véio ficou do meu lado, depois de tudo...
- Mas se ele sabe como é a sobrinha não te estressa, Carol!
Mas a Carol ainda precisava exorcizar mais coisas.
- Mas vocês acreditam numa coisa dessas? Diz Yumi, diz se alguma vez eu dei margem pra qualquer coisa?
- Não..
- Nunca! Nunca Manuela - voltando-se para mim - eu nunca trai ela, apesar dela já ter ficado com uma menina aí, nunca! Deixei de ir em muito show legal, em muita festa por causa dela. É assim, a gente só se foda quando gosta de mulher. Só se fode!
- Carol, não adianta ficar assim agora. Se o pai da Ma sabe, ele vai conseguir desdobrar todo mundo. Sempre foi assim, até ele aceitar vocês, ninguém podia nem tocar no seu nome. Foi ele começar a entender que você virou da família, com direito a passeio no fim do ano.
- E aquelas férias foram ótimas! - sorriu olhando para o nada.
- Então, vamos parar de se estressar né garota?
- Me desculpem meninas, mas eu perdi o clima pra festa. Se eu fosse pra uma agora não ia sobrar nem uma menininha pra contar história - sorriu ela novamente.
- E como você não quer mais confusão, vamos ficar aqui por casa mesmo né?
- Não, eu levo vocês lá, você já esta toda arrumada, toda linda - brincou ela tentando puxar Danielli para perto.
- Eu não me importo, assim nós podemos ficar conversando, tem um mercadinho perto aqui, compramos umas cervejas e fazemos a festa aqui, o que você acha? Ou vai querer ir para casa ficar sozinha pensando besteira? - perguntou Danielli.
- Pode ser - disse Carol ainda triste. - Mas depende da Manu, e aí topa? Se você não topar eu também não topo.
Carol tinha algo muito especial. Seu sorriso era franco, verdadeiro. Seus dentes quadrados e perfeitos o faziam ficar mais radiante ainda. Dizer que Carol era simpática, era pouco.
- Eu topo, tudo pra ninguém ficar sozinha em casa triste - sorri.
- Final de semana que vem nós vamos lá, aí você conhece o bar mais top da cidade. Eu só tenho que ir ao banheiro, daí nós vamos ao mercado - disse, saindo do quarto.
Quando ela entrou no banheiro nos olhamos e ao mesmo tempo rimos.
- Que situação hein? - falei - O que você vai dizer numa hora dessas?
Fomos ao mercado, e após uma árdua discussão sobre qual comprar, compramos um engradado de Skol, falta de dinheiro é fogo. Subindo o elevador meu celular tocou. Era a Luciana. Pensei em não atender, mas as duas estavam me olhando.
- Oi - falei.
- Então você começou a atender os meus telefonemas? Se eu soubesse disso, teria te ligado antes.
- Não faz eu me arrepender por ter atendido.
- Mas continua a mesma.
Fiquei em silêncio.
Entramos no apartamento.
- Eu fiquei sabendo que você está aqui né? E nem me avisou?
- Eu nem fui, o Rogério combinou comigo que vou semana que.. - pensei - que eu vou quando precisar, ele ainda não resolveu tudo.
- Que pena, queria te visitar.
- É..
- Eu estou com saudade, não paro de pensar na nossa despedida.
As meninas ainda estavam me olhando, quando foram colocar a cerveja na geladeira, fui para a sacada que ficava depois da sala. A noite estava quente, nem uma planta se mexia.
- Nós já conversamos sobre isso Lu.. Não vamos começar a brigar de novo, né?
- Eu não me recordo de ter conversado com você sobre isso não.
- Você quer conversar sobre o que então?
- O que eu te fiz pra você me tratar desse jeito? Eu não mordo, nem tenho como te morder pelo telefone - riu baixinho - mas se você estivesse aqui..
- Eu to meio ocupada agora Lu, outro dia nós conversamos...
- Você está sozinha?
- Eu to na casa de uma amiga.
- Já arranjou outra é?
- Lu.. não começa, por favor.
- Eu não falei nada de mais, estou te perguntando, você que está alterada.
- Desculpa Lu. É que eu não sei o que você quer de mim.
- Quero você Manu. Esse mês que ficamos longe.. Foi tão ruim para mim.
- Não deu certo né Lu, e isso não é assunto pra conversarmos pelo telefone...
- Então quando você vier para cá de novo, você vem na minha casa pra nós resolvermos, sim?
Respondi que sim mesmo entendendo o seu "resolvermos".
Entrando no quarto percebi que as duas pararam de falar e ficaram me olhando. Vendo que eu não ia falar nada, voltaram a conversar.
- E a Cássia..., avisou ela que você não vai mais lá?
- Nossa, esqueci completamente falou Yumi pegando o telefone que estava ao lado da cama. Será que Cássia era a sua namorada?
Ficamos conversando sobre a faculdade, sobre futuro, sobre a violência na cidade, enfim sobre tudo. Ou quase tudo, não tocamos em nenhum momento sobre homens ou mulheres, talvez para evitar que a Carol se lembrasse da Maria.
Já passava da meia-noite quando a cerveja gelou. Naquela noite abafada e quente, qualquer coisa gelada cairia bem. Mas como estava sem comer a muitas horas, com os primeiros goles já me sentia mais alegre, e tudo rapidamente a minha volta ficou mais brilhante. Talvez estivesse achado uma boa definição para ficar bêbado, as coisas ficam brilhantes.
Nós três estávamos em um clima de festa, conversando, rindo, falando besteira. Carol nem parecia mais a mesma que chegara há horas atrás chorando de raiva. Danielli já estava de pés descalços, e havia trocado, mais uma vez, a blusa. Colocara uma camiseta do The Strokes, e lá se foram mais meia hora conversando sobre música, clipes, discutindo sobre o que era música boa ou não. Conclusão que chegamos: nunca tente chegar a conclusões depois de tomar cerveja.
Era 1 hora da manhã quando os pais de Yumi chegaram. Ela disse que éramos para esconder as latinhas, crente de que eles não iriam sentir o cheiro. Mas eles nem entraram no quarto, apenas perguntaram do outro lado da porta, se estava tudo bem e se ela não sairia hoje.
- Vocês não estão com fome? Eu estou. Mi arruma lá uma coisa pra nós comermos - disse a Carol.
- Ah, você já é de casa, vai lá pegar.
- Então pede você Manu, já que você ainda não é de casa - riu Carol.
- Não sou? Então porque ela não buscou água para mim hoje à tarde? - perguntei.
- Então ela já te considera de casa, vai lá pegar pra nós Manu.
Ambas já estavam falando mole.
- Eu que vim lá da p. que pariu estudar, deixando meus amigos lá, deixando as pessoas que eu gostava lá, e eu tenho que vir pra cá passar fome? - nessa altura as três riam.
- Você deixou quem que você gostava lá Manu? - perguntou Carol, mas os olhos curiosos de Yumi também estavam sobre mim.
- Meus amigos, oras.
- Só amigos?
A imagem de Patrícia veio em minha mente. Depois do telefonema sobre o frete, não havíamos mais conversado. Queria que ela... Não sei o que queria. Eu sentia apenas que o álcool já estava tomando grandes proporções sobre meu ser. Lembrei de quando saíamos e ela acabava bebendo de mais, queria seguir meu ritmo e sempre dormia no meu ombro. Lembrei de todas as vezes que saímos e que fizemos mil e um esquemas para que seus pais, muito severos, não percebessem nada. Pensei que eu havia deixado sim alguém, mas que não fora pra vir pra faculdade, fora muito antes, quando conheci Lu, ou quando coloquei a culpa em Luciana pelo meu namoro não dar certo com Patrícia. Também já havia colocado a culpa no namoro com a Patrícia, por não darmos certo. Era fácil pra mim, sempre colocava a culpa nos outros, no mundo e não em mim. A verdade era essa, eu não sabia namorar. Eu não queria compromisso, eu não queria nada, mas queria tudo. Esse era meu lema. Minha expressão automaticamente se fechou. Nostalgia. Eu fui uma canalha com a Patrícia. Eu fui uma canalha com a Luciana. E agora. Bem, agora pelo menos eu estava sozinha sem magoar mais ninguém.
- Pelo visto não - riu Dani.
- Eu tava pensando longe mesmo... – mas como sempre fazia, deixei isso pra lá. Não iria pensar mais no que já tinha ido, só no que estava sendo. Era isso, esse seria meu novo lema, o agora. Já que o ontem.. bem, o ontem não voltaria mais, e eu faria questão de que não voltasse.
- Aonde?
Sorri.
- Deixa para lá, eu to com fome - falei indo para a cozinha.
Demorei cerca de 10 minutos para achar a cozinha e mais 5 para localizar o interruptor atrás de um balcão. Quem havia tido essa idéia brilhante?
Abrindo a geladeira não vi nada comestível. Só verdes e mais verdes. Talvez estivessem de dieta. Procurei pelo balcão e vi um pacote de bolachas doce pela metade. Peguei-o e fui para o quarto. Na saída bati na mesa, no armário, na porta, no sofá, na estante da sala, na parede, na porta, até enfim chegar ao quarto.
- Achei isso - e já abri o pacote pegando 4 bolachas de uma só vez - quer Carol?
- Manda.
Comemos aquelas bolachas, mas na verdade ele serviu só para enjoar.
- Você é uma anfitriã maravilhosa, Mi - falou Carol - enquanto suas visitas passam fome, você fica na frente desse computador falando com a Cássia.
Mas ela nem se mexera, continuava a teclar.
- Quem é a Cássia - perguntei.
Carol riu - É a namorada da Mi.
Yumi virou-se rapidamente - Não fale palavrões na minha casa, Carol - e rindo-se continuou - Manu não dê ouvidos a ela, a Cássia é apenas uma amiga.
- Amiga? - e olhando para a Carol - amiga como a Ma e a Carol?
Mas me arrependi de ter falado isso. Carol voltou a ficar com a expressão fechada.
- Desculpa Carol - falei sem jeito.
- Não estressa Manuzinha, não estressa. Eu to ficando brava, pois to com fome, deixa eu ir lá achar alguma coisa para comermos, Manu, pois se ficarmos esperando pela Danielli Yumi, todo mundo morre de fome.
Acompanhei-a até a cozinha. Dessa vez foi mais fácil ir até lá. Surpreendi-me com a rapidez com que Carol acendeu a luz. Realmente o álcool tem poderes mágicos. Estava na hora de parar com a bebida, pensei.
- Então Manu, o que você fazia da vida antes de vir para cá? - perguntou Carol abrindo a geladeira.
- Depois do cursinho, vejamos. Nada? - ri alto.
Yumi gritou do quarto que era pra cuidar com o barulho. Muito esperta ela.
- Nada?
- Nada. E você?
- Calma, ainda estamos falando de você - e revirando a geladeira exclamou - não tem nada comestível aqui! Já sei, é que o irmão dela está de dieta, então todos resolveram encarar junto.
- E quem paga o pato somos nós, as visitas desavisadas.
- Mas aqui tem tele-entrega, conhece? - riu Carol - Você gosta de pizza?
- Quem não gosta?
- Vamos chamar então - falou encostando-se no balcão e virando para mim.
- Vamos, mas eu não tenho grana nenhuma aqui. To desde aquela hora lá na faculdade que nos vimos aqui.
- Não acredito que a Yumi fez isso com você?
E riu durante 1 minuto.
- O que você está rindo?
- Ela é assim sempre assim. Quer dizer, quase sempre.
- Assim como?
- Ah, deixa para lá Manuzinha, você é muito nova para isso.
- Agora você vai falar.
- Outro dia. - e ficou olhando para mim, mas sentia que seu pensamento estava em outro lugar.
- Você ta triste né?
- Estou.. Não sei, sinto um vazio, porque nós estamos namorando há tanto tempo, faz quase 3 anos.
- Nossa, tudo isso?
- Sim, e ela nunca acreditou em mim, nunca confiou.
- E porque você ainda está com ela?
- Porque eu gosto dela Manu, gosto muito.
- Mas namorar sem confiar?
- É.. Você não deve entender - riu ela.
Apenas fitei-a.
- Ou entende?
- Entende o que? Em uma relação, independente de como o casal seja, hetero ou não, precisa de confiança. Eu penso assim.
- Então você já namorou?
- No "interior" meninas já podem namorar antes do casamento, sabia?
Eu ri.
- E agora, ta namorando ainda?
Ri novamente.
- Deus me livre! To fora dessa.
- Nossa, o namoro foi tão ruim assim?
- Digamos que não terminou da melhor forma possível. Mas não vamos falar sobre mim, né? Essa pizza, sai ou não sai?
Fomos para o quarto e enquanto esperávamos Yumi chamar a pizza ficamos conversando sem parar sentadas na cama.
- Ela é a namorada da Mi - falou Carol vendo que Yumi ainda não havia ligado para a tele-entrega, pegando o telefone.
- Já disse para não falar em namorada, Deus me livre.
- Ela tem medo de namorar, acredita Manu? Depois que...
- Nem me venha falar sobre isso Carol, você é mala pra caramba né?
Em cerca de 30 minutos a pizza chegara.
- Ela namorou durante uns 7 meses eu acho - falou Carol com a boca cheia.
- 5 - falou Yumi.
- 5 meses - continuou Carol - e era um saco porque ela estava proibida de sair com a gente.
- Pelo menos eu dei fim àquela bagaça né? Você que ainda não teve coragem pra terminar com a Ma.
Começaram uma leve discussão, mas rapidamente já estavam rindo.
- Ela - apontou para a Yumi - ficou traumatizada com namoros.
Minha visão já estava embaçada, era o sinal de que se tivesse "mais um copo" coisa boa não daria.
- É Manu, se a Carol te disse pra não se envolver com mulheres, te digo, nunca se envolva com homens!
Me desapontei, então ela namorava com um cara?
- Carol, a Ma entrou no MSN, ela quer falar com você - e olhando para o último pedaço de pizza gritou - hei suas comilonas, não deixaram quase nada para mim? Egoístas!! - Deixando a Carol sentar em frente ao computador.
Me estiquei na cama me espreguiçando. Meus olhos de repente ficaram pesadíssimos.
- Hei Manu, você não acha que vai dormir na minha cama, né?
- Você quer que eu durma onde? - já com os olhos fechados.
- Tem um colchão no quarto do meu irmão, pega lá.
- Pega você - falei quase dormindo.
Ela tentou me sacudir.
- Manu eu estou com o braço machucado..
- E eu estou cansada de ficar carregando caixas pra cima e pra baixo.
Mas a última coisa que ela disse quase não foi ouvida. Tudo a minha volta girava, mas tão logo começou, parou e adormeci.