sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Sonhos

Acordei no meio da noite com frio. Havíamos dormido daquele jeito, deitadas de barriga pra cima. Olhei para o lado e lá estava Yumi. Ali na verdade. Parecia que mesmo dormindo em sua boca ainda havia vestígios de sorriso. Parecia que ela continuava com aquele ar enigmático me convidando. Com delicadeza consegui puxar o colcha onde estávamos deitadas em cima para nos cobrir. Ela se mexeu um pouco, meio que protelando por quase acordá-la. Quando passei a colcha por cima de nós ela se encolheu um pouco, aproximando todo seu corpo contra o meu. Colocou sua cabeça um pouco abaixo da minha, encaixando-se entre meu peito e meu pescoço, passando seu braço por cima de mim me abraçando. Ou eu estava sonhando ou ela também não estava dormindo. Pousei o meu braço sobre ela na expectativa de a qualquer momento abortar. Mas ela só fez aproximar-se mais ainda de mim. Era mais fácil voltar a dormir assim.

***

- Que horas é pra ir? Sei... - riu - Não eu não sei. Tudo bem, marcado então. Certo. Doze? Mas que horas é? Ok, então estaremos aí.
Era a voz de Yumi muito perto de mim. Ainda estava com os olhos fechados. Talvez aquilo fosse mesmo um sonho. Havia imaginado enquanto dormia que estava deitada junto dela, abraçada, na mesma cama aquela.
Permaneci de olhos fechados, esperando a qualquer momento que abortassem meu sonho, que acordaria sozinha numa cama qualquer. Sentia seu corpo quente encostado no meu. Meus olhos estavam fechados, mas ainda sentia seu cheiro, seu calor, sua vida ao meu lado. Meu braço ainda estava sobre ela, e ele ainda assim permaneceu quando Yumi se mexeu encaixando-se mais em mim. Talvez estivesse mesmo sonhando. Talvez estivesse mesmo imaginando coisas de mais. Mas se fosse sonho não haveria problema algum em eu encenar e ensaiar as tantas coisas que desejava fazer com Yumi. Pois se estivesse sonhando, que fosse o sonho mais belo, para que quando acordasse não restassem dúvidas de que aquilo era de fato um sonho. O melhor sonho.
Abaixei minha cabeça sentindo seu rosto mais próximo do meu. Parei ainda de olhos fechados. Aguardando. Tudo permaneceu igual. Continuei. Com meu braço busquei-a mais para perto de mim. Com o seu braço senti seu abraço apertado, escorregando por minhas costas até chegar a minha cintura. Sua perna ficou sobre a minha. Meu rosto ficou mais próximo do seu. Seu rosto subiu na altura para que nossas bocas pudessem se olhar. Mas eu continuava de olhos fechados, com medo de abri-los e acordar, dando fim aquele sonho. Sentia a sua respiração acelerar junto com a minha. Senti que meu corpo não aguentaria ficar por muito mais tempo de olhos fechados. Sua mão escorreu por baixo da minha blusa chegando a minha pele. Minha mão subiu até chegar à sua nuca, sentindo por entre meus dedos seus fios de cabelos. Nossos narizes se encostaram. Estava com medo de abrir meus olhos e acordar daquele sonho.
- Manu...
Aproximei minha boca da sua, não era a hora certa de acordar. Sua respiração encontrava minha boca, que queria a todo o custo encontrar a sua boca. Sua mão ainda por baixo da minha blusa me puxou forte contra si. Porém seu rosto se distanciou de mim.
- Manu, eu não posso.
Abri os olhos, o sonho acabara.
Ela ainda permanecia na minha frente, sua mão continuava embaixo da minha blusa, sua boca ainda estava olhando para a minha. Consenti com os olhos, ela não podia, mas fazia de tudo para parecer que sim, que estava ali, que aquilo era mais que um sonho. Então pra que insistir em fazê-lo existir, mas não acontecer?
Encostou sua testa na minha, me olhando nos olhos. O que outrora era enigmático se tornara claro. Mas na verdade deixava-se entender até um certo ponto, o ponto mais preciso, porém o resto ainda estava obscuro. Ela deixou tudo acontecer até este ponto, o resto só descobrindo.
Fez um gesto negativo com a cabeça, e murmurou algo como desculpa. Demorou ainda um tempo até tirar todo seu corpo que estava colado no meu de mim. Antes de levantar da cama ainda me lançou novamente aquele olhar que deixava transparecer poucas coisas ou quase nada.
Eu permaneci na cama ainda tentando entender estas tais poucas coisas que podia compreender. Olhava para todos os lados entanto encontrar alguma coisa, qualquer coisa que fizesse eu ter acordado daquele sonho em outro lugar, não ali, não ao seu lado. Antes fosse outra coisa. Mas ainda continuava na cama de Yumi, porém naquele momento completamente sozinha.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Se

Estávamos deitadas de barriga pra cima. Já era setembro, algumas provas em vista e uma bela tarde de sol. Um sábado. Uma pizza requentada. Uma cama. Nós duas.
- O que a gente vai fazer hoje?
- Não sei, o que você quer fazer?
- Nada, é bom ficar assim deitada depois de comer.
- Você é uma bela de uma velha que só pensar em dormir.
- Tem coisa melhor pra se fazer?
- E a Jéssica?
- O que tem ela?
- Ela não vem?
- Nesse final de semana não.
- Por quê?
- Porque eu precisava estudar, tenho um trabalho super gigante pra fazer.
- E porque você não está fazendo?
- Porque eu to aqui com você - sorriu. Senti com o canto do olho que ela olhava para cima curtindo aquele momento.
- Mas a gente não ta fazendo nada.
- Eu sei. E por isso que é bom!
Escorei minha cabeça com a mão deitando-me de lado ficando de frente para ela.
Deixei escapar um olhar de relance sobre seu corpo tão perto de mim. Agora ela sorria mais, talvez por sentir todo meu olhar sobre ela. Talvez até satisfeita.
- E a Marta?
- Pois é, perdi.
- Perdeu mesmo um mulherão!
- Engraçado que você não parecia querer que eu ficasse com ela, nem ontem, nem nas outras vezes.
- Eu não tenho nada o que querer ou não querer.
- Não tem.
- Não tenho.
- Mas fala.
Ela tentou esconder seu sorriso virando-se para mim.
- Não posso falar?
- Pode.
- Hmm - continuava sorrindo. Cada vez que sorria, ou se mexia, encostava-se em mim, até assim permanecer - bom saber.
Eu sorri de volta. Permanecemos assim sem falar absolutamente nada, apenas sorrindo. Olho no olho. Não havíamos mais tocado no assunto do nosso quase-beijo. Em nenhum dos tantos que não aconteceram pra falar a verdade. Talvez por nunca terem saído do projeto. Mas eu havia tentado ao menos uma vez fazer daquele quase beijo algo real. E era como se nada tivesse feito, afinal continuava no zero a zero.
- Mas a Carol ta se dando bem agora, fico feliz por ela.
- Eu também fico.
- Você acha que elas não voltam?
- Não sei, mas tomara que não né? - olhava de vez em quando nos meus olhos, de vez em quando pra minha boca. Começava a ficar nervosa com aquela situação.
- Por quê? - não conseguia conter aquele sorriso no canto da boca.
- Porque eu quero que a minha amiga seja feliz.
- Mas a Má não é tua amiga também?
- Sim, quero que as duas sejam felizes.
- Mas você acha que elas separadas serão mais felizes do que juntas?
- Tenho certeza absoluta. Sabe fico pensando - agora fora a sua vez de virar-se para mim por completo - às vezes fico viajando...
- Sobre?
- Ah, às vezes penso que tem certas pessoas que não nasceram pra ficar juntas?
- Você acredita no destino? - ri.
- Não besta, não to falando disso. To falando de coisas além de qualquer história que inventem pra dar desculpas sobre amores que não dão certo. To falando que existem pessoas que se dão tão bem como amigas que se um dia virarem namoradas é provável que não dêem certo.
Tentei fazer de conta que aquilo não poderia ser uma indireta.
- Mas elas eram amigas antes?
- Até onde eu sei mais ou menos.
Ri de sua incerteza.
- Mas sei lá. Às vezes a gente confunde amor com amizade, o fato de você se dar super bem com uma pessoa, ter várias coisas em comum, às vezes mais até do que você esperava quando conhece a pessoa, e por isso acha que pode namorar. Aliás, pode não, deve.
- Interessante essa tua teoria, é isso que você aprende na escolinha?
- Não - riu me empurrando - não é isso que eu aprendo na escolinha, é isso que eu vejo acontecer.
- Hmm.
Ela revirou os olhos.
- Eu já encontrei uma pessoa que parecia ter saído da mesma forma que eu, gostávamos das mesmas músicas, lugares, cores, roupas, livros, textos, momentos, tudo era compartilhado e mútuo.
- E aí?
- E aí que não deu certo, obviamente.
- A é? Mas justamente por ter tantas coisas em comum é mais fácil de lidar com a pessoa, não?
- Não, eu gosto quando as pessoas são diferentes de mim.
- É, eu também gosto.
- Pois então, como você pode namorar alguém tão parecido com você? Você nunca vai ter uma surpresa, porque tudo que vocês fazem já é premeditado, pois vocês compartilham os mesmos gostos.
- Continuo achando interessante - sorri.
- É interessante sim - sorriu de volta.
Trocamos um longo olhar sem dizer nada. Seus olhos fecharam e abriram com calma, muito devagar, como se soubesse que eu os cuidava com toda atenção.
- Sabe, eu prezo muito meus amigos.
- Eu continuo concordando - sorri tentando novamente não encarar aquilo como indireta.
- Você não acha que pode estragar uma amizade ficando com uma amiga?
- Acho que vai depender do que você sente e do que ela sente. Do valor que você dá pra amizade e da maneira como você vê ficar com a pessoa.
Sorriu concordando com a cabeça.
- Mas você já ficou com suas amigas né?!
- Já.
- E nunca estragou a amizade?
- Até onde eu sei não.
- Você já ficou com a Déia né?!
- Como você sabe disso?
- Os boatos rolam por aí. Mas vocês continuam amigas né?!
- Sim, muito amigas. O fato de eu ter ficado com ela parece que passou batido na nossa amizade, e é disso que eu falo. Depende da maneira como você vê essa amiga, e a amizade.
- Mas com a Renata também foi assim?
- Não sei, com a Renata por incrível que pareça as coisas são mais complicadas.
- Pois é, esse sempre foi meu medo de ficar com alguma amiga minha.
Esperei que dessa vez isso fosse uma indireta.
Ela se calou me olhando e com aquele sorrisinho quase imperceptível. Me deu vontade de lhe dar um beijo e tocar um dane-se pra tudo. Dessa vez eu ia ficar em silêncio para ver até aonde seu olhar e aquele sorriso iriam.
Ela por sua vez pareceu ter a mesma ideia que eu. Ficamos assim um longo período em silêncio apenas nos olhando nos olhos. E era difícil mantê-los parados, fixos numa única posição. Queria olhar para ela toda, sua boca, seu sorriso. Mas sentia com os olhos seu sorriso. Sentia na minha perna a sua encostando em mim. Ela olhou para o lado, ainda com seu rosto virado pra mim. Depois calmamente voltou-se de barriga para cima. Sempre acompanhada daquele sorriso. Pousou suas mãos por cima de sua barriga e assim ficou.
Continuei olhando-a, agora vencida pela sua beleza, pela sua boca, pelo seu corpo.
Ela sabia que eu estava assim, olhando-a mesmo. E ela continuava sorrindo, sem falar nada, apenas sorrindo. Um sorriso diferente de todos os sorrisos que eu já vira. Era um sorriso que eu conseguia sentir o gosto. Do que exatamente eu não sei, mas sentia. E ao mesmo tempo que ele me dizia tantas coisas, ele era enigmático. Como se estivesse a minha espera para desvendá-lo. Me convidando, me provocando.
Foi a minha vez de novamente me deitar de barriga pra cima. Inevitavelmente nossas pernas se tocaram, e assim permaneceram. Eu não conseguia esconder aquilo tudo que eu estava sentindo apenas pelo seu sorriso. Nunca tinha imaginado que o seu silêncio pudesse me fazer tão bem. E aquele sorrisinho no canto da boca.
Quando me dei conta eu estava sorrindo ainda, com muito menos timidez que outrora, chegava até a mostrar os dentes. Senti com o olho que ela virara para mim. Olhei para ela na hora em que abrira a boca para falar alguma coisa. Mas parou, com a boca semi-aberta. Olhou profundamente para minha boca. Sorriu. Olhou pra meus olhos. Continuou a sorrir. Para a minha boca. Eu sorri. Para os seus olhos.
Assim ficamos pelo resto da noite. Naquele momento percebi que nada além de olhos e sorrisos importava.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Primeira ida

- Ta pronta?
- To e você?
- Também.
- Então vamos?
- Sim.
- Você ta nervosa?
- Não e você?
- Também não.
- Então vamos?
- Sim, vamos – me estendeu a mão.
- Vamos – lhe retribui com um sorriso.
Entramos naquele lugar tão esperado e desconhecido. Tinha muitas gentes e por incrível que pareça, várias pessoas com seus respectivos namorados e namoradas. Sorri satisfeita, aí sim.
Encontramos com o André e o Beto.
- Vocês demoraram hein?
- Você não sabe a mão que a gente fez pra chegar aqui.
- Não entendo porque vocês não vieram comigo.
- Porque a gente ainda tem aula.
- Esqueci que vocês ainda são crianças.
- Oi Beto, tudo bem com você?
- Tudo ótimo, vocês estão lindas.
Papo vai papo vem encontraram um amigo deles, desapareceram nos deixando sozinhas.
- E aí meu amor – falei dando-lhe um beijo – o que você está achando?
- Muito legal – seus olhos brilhavam. Fiquei feliz de vê-la assim. Enfim poderíamos nos beijar a vontade naquela festa. Nossa primeira balada GLS. Ainda era estranho ver todo mundo sendo autêntico, podendo demonstrar o seu afeto sem medo de punição. Era gostosa aquela sensação de apenas segurar a sua mão sem olhares. Aqueles olhares que matavam, que castigavam mesmo sem culpa. E as vozes. Os resmungos.
Mas ao mesmo tempo que era boa aquela sensação de liberdade, tanta liberdade dava medo. Ainda sentia culpa. Ainda sentia o peso daquela situação.
- Eu te amo – fui surpreendida. Ela me olhava nos olhos.
- Eu também – sorri apaixonada.
Mas culpa por quê? Eu não estava fazendo nada de errado. Não estávamos, estávamos?
- O que foi meu amor?
- Nada.
- Fala, eu te conheço.
- Só tenho pensado numas coisas ultimamente.
- No que, posso saber?
- Ahm, me sinto mal por ter que fazer tudo escondido com você.
- Mas hoje você não precisa se esconder.
- Mas pra estar aqui hoje estamos nos escondendo, não?
- Sim.
- Estamos supostamente na festa do pijama de uma colega nossa que nem existe, assim como às vezes o nosso relacionamento parece não existir.
- Como parece não existir?
- Quem mais além de nós duas sabe do nós, de tudo que eu sinto por você. Que eu te amo, que eu só penso em você, que você é a menina mais linda do mundo. Que eu sou a menina mais sortuda e a mais feliz com você? Quem mais além de nós duas sabe que você é o amor da minha vida, que a gente está juntas há tanto tempo, que eu te amo desde a primeira vez que...
Colocou seu dedo delicadamente sobre meus lábios me fazendo parar de falar.
- Quem mais além de nós duas pra sentir tudo isso que a gente tem?

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Reflexos

Já estava meio desiludida daquela festa que não acabava. Marta e Carol continuavam conversando muito, suspeitei que estivessem perto de mais pra quem estava apenas trocando algumas ideias. Provavelmente elas haviam ficado. Eu não culpava Carol, ela tinha seus motivos. Na verdade ela tinha todos os motivos pra isso, idiota era a Maria, sempre com sua incansável chatice. Ela que ficaria sozinha no fim. Solteira com gatos, mil gatos, no zero a zero até o fim do jogo.
Fui ao banheiro. Me olhei profundamente no espelho. Quem eu via? Alguém sozinha, e nem ao menos gatos eu tinha. Apenas histórias pra contar. E nem gatos eu tinha pra contar. Nem histórias, apenas roteiros não produzidos. Nenhuma história até o fim. Aquele fim esperado. Apenas projetos guardados dentro daquela gaveta de cabeceira, junto com um monte de lixo, aquelas coisas que nunca sairiam dali. Apenas eu aqui e lá. Só eu. E os lixos. Os tais roteiros. A trajetória que eu vi de longe, que nunca fez parte de mim.
E a Patrícia? Onde será que ela tava agora? De certo mais do que onde, ela estava como. Como sempre sonhou. Viajando, aprendendo, e de certo com o coração bem ocupado da Rafaela. Do amor. E o meu amor, onde tava? Vazio, perdido em qualquer canto daquele lugar sujo, cheio de gente, de barulho, do instantâneo e do solúvel. E eu?
Sozinha. Sem ela, sem o nós, sem ninguém. Todas as vezes que tive, desfiz. E depois de tanto desfazer ou não deixar que o fizessem nada, lá estava eu. Sozinha. Apenas num reflexo solitário. Sozinha não. Na verdade eu e minha decepção. Não. Eu, minha decepção, meu não estar e meu mal estar.
É, no fim eu não estava sozinha, estava com todas as minhas coisas. Eu e meu reflexo. Os reflexos das minhas coisas. Eu.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Dois lados

Avistei a menina-bonita-da-praia. Yumi negara meu beijo, não tinha nada a perder - iria falar com a menina, o que mais poderia acontecer, ela me negar um beijo também? Não havia morrido pelo primeiro beijo negado da noite, não morreria se assim tivesse o segundo.
Caminhei decidida em sua direção. Ou caminhei como pude, pois havia tantas pessoas por metro quadrados que mal conseguia sair do lugar, quando cheguei à posição em que ela estava, novamente havia perdido ela de vista. Sorri para mim mesma desiludida, esta noite não era pra mim.
Voltei à mesa com as meninas, Jéssica e Yumi já não estavam mais. Carol e Marta travavam uma conversa engraçada, as duas gesticulavam muito, Carol por certo já estava bêbada de mais, talvez triste pelo término de seu namoro. Marta assumira um tom maternal novamente, parecia que aos poucos conseguia acalmá-la.
Não estava muito disposta a ficar ali servindo de ombro amigo, afinal eu é que precisava de um. Então que eu achasse algum ombro para chorar, pensei triste. Fui novamente em direção ao bar, porque afinal de contas todas as vezes que foram buscar alguma bebida haviam se esquecido de me dar alguma.
Dei de cara com Déia e Renata, ambas muito bêbadas. Déia sorriu, vindo em minha direção com os braços abertos.
- Oi meu amor - segurou-se firme em mim - onde você estava?
- Levando um fora da Yumi - falei no tom exato para que Renata pudesse ouvir também. Cada uma ficou de um lado meu.
- Duvido que aquela japa idiota tenha te dado um fora - falou Renata se aproximando mais de mim.
- Pois eu também duvido - Déia a imitara. As duas estavam praticamente se beijando, ou me beijando, não fazia diferença.
- Vocês estão bêbadas - sorri - e eu não, então me deixem comprar alguma coisa pra ficar no mesmo nível de sanidade de vocês.
Tentei passar minha cabeça por baixo do braço das duas, porém elas me impediram.
- Sabe Manu... - iniciou Renata.
- a gente tava pensando numa coisa - continuou Déia.
- Lá vem - suspirei suspeitando.
- Você ta solteira, eu também.
- E eu também - completou Renata.
- Sim, então vamos procurar alguém pra gente não continuar mais solteiras? - falei já prevendo o provável desfecho.
- Sabe aquela historinha de que a gente procura procura as coisas que estão bem debaixo do nosso próprio nariz?
Soltei uma gargalhada, não era possível que elas estavam falando aquilo. Ou eu estava ouvindo coisas de mais.
- Hm, o que tem essa história? - me fiz de desentendida.
- A Rê é linda.
- Sim eu também acho.
- A Déia é linda - falou Renata.
- Continuo concordando.
- E você é linda - foi a vez de Déia continuar.
- Se vocês dizem - continuei rindo.
- Pra que negar aquilo que a vida nos disponibiliza? - Renata se aproximou ainda mais de mim.
Eu comecei a rir sem parar naquela situação.
- Déia ela acha que a gente ta brincando.
- Ela é do interior, deve ta pensando que estamos brincando mesmo.
- Vamos mostrar pra ela que a gente não brinca em serviço.
Ali na minha frente, Renata se aproximou de Déia beijando-a, a poucos cm do meu olhar. Mais do que qualquer outra coisa, estava achando aquela situação muito engraçada.
Após o beijo as duas voltaram-se para mim, num mesmo olhar fixo e mútuo, minha boca.
- Vocês tão brincando...
Renata não esperando eu terminar a frase passou seus braços em volta de mim me envolvendo, me puxando e me beijando, sem chance de segunda opção. Só parou de me beijar, pois eu começara a rir sem conseguir me conter.
- Aí Rê, você não sabe fazer nada que preste mesmo hein? – falou Déia tentando me puxar pelo braço.
- Calma aí Déia – segurei-a pelos braços, estava quase me beijando também.
- Desde quando você acredita em monogamia? – perguntou Renata me olhando.
- Eu não acredito.
- Então?
- Então nada, vocês estão bêbadas.
- E?
- E ponto.
- Dois pontos Manu, o que está por vir.
- E o que está por vir?
- Pode ser um beijo meu.
- Ou?
- Ou da Renata.
- E ou?
- Ou você dá nas duas – sorriu.
- Ou? – ainda tentei.
- Ou você leva mais um fora de Yumi e ou – falou interrompendo minha tentativa de prosseguir – ou você fica sozinha. Uma velha, solteira, caída, sem gata nenhuma, com gatos, mil gatos, zero a zero, game over.
Não consegui conter minha risada.
- O que você tem a perder Manu?
- Nossa amizade?
- Você não disse que estamos bêbadas, ninguém se lembrará de nada amanhã.
- Mas eu não estou.
- A gente confia em você.
Fiquei em silêncio sem saber o que fazer. Ri, apenas continuei rindo.
- Manuela você é chata de mais, peloamordedeus – falou por fim Déia me deixando sozinha com Renata. Ela por sua vez ficou me olhando por alguns instantes sem falar absolutamente nada, esperando talvez alguma reação, e vendo que não o fiz, nem de longe, saiu. Fiquei sozinha. Eu e apenas eu.

domingo, 2 de agosto de 2009

Re-cortes

- Que papo de louca é esse Carol, você não ta falando sério, ta?
- Eu to.
- Mas ta tudo bem? - interrompi o questionário de Yumi.
- Ta tudo perfeito.
- Como assim? - insistia Yumi – Mas o que aconteceu?
- O de sempre, porém eu to farta desse nosso sempre.
- Mas ninguém termina namoro assim Carol.
- Assim como?
- Do nada.
- Quem disse que foi do nada... – pareceu que falou mais para si do que pra nós, tentando talvez encontrar as suas razões para este fim. Olhava para a pista de dança do térreo.
- Yumi, vem cá - disse quando Jéssica e Marta chegaram com as bebidas.
- Que foi? - perguntava Yumi enquanto a puxava pelo braço para um local mais distante das meninas.
- Pra que ficar fazendo este questionário com a Carol, você não percebe que ela ta triste.
- Você acha que ela ta com cara triste?
- Acho que não.
- Eu também acho que ela não ta com cara triste e é por isso que eu to preocupada, acho que agora a coisa é pra valer. Nunca vi a Carol sem uma gota d'água nos olhos depois de terminar com a Má. Nem que fossem lágrimas de raiva.
- Mas ficar fazendo perguntas não vai melhorar a situação.
- E o que vai melhorar a situação Manuela?
- Não sei.
- Aposto que essa sua cara de "não sei" ajuda muito menos.
- O que foi?
- Que foi o que?
- O que você tem?
- Eu não tenho nada, ta louca você também?
- Porque você ta assim comigo?
- Eu não to nada, você que ta me ignorando a noite toda.
- Eu to te ignorando? Como eu vou falar com você se você está se agarrando com a Jéssica?
- Vai você lá ficar com a Marta, não é assim que você vem fazendo desde sempre, ficando com todo mundo e não me contando nada?
- Começou...
- Começou o que? Eu não comecei nada, to até saindo daqui.
Segurei-a pelos braços. Tive vontade naquele instante de lhe dar um beijo, podia ser roubado, podia ser inesperado, mas um beijo, ali, naquele lugar, naquele momento desde sempre. Olhei no fundo dos seus olhos e não vi hesitação nenhuma. Meu coração começara a disparar, o sentia bater forte dentro do meu peito.
Passei minha mão sobre seu rosto, Yumi fechou os olhos. Me aproximei rapidamente dela, encostando meu corpo no seu. Olhava para seu rosto tão perto do meu, meu coração batia tão forte que mal conseguia ouvir a música alta que tocava. Fui em direção a sua boca, ainda com minha mão sobre seu rosto. Yumi abrira os olhos mirando diretamente para minha boca. Fechou-os novamente, pousando seus dedos sobre minha boca impedindo que eu lhe desse um beijo.
- Manu...
Ficamos assim por algum tempo que não sei quanto, nossas bocas separadas apenas pelos seus dedos. Ainda assim sentia seu hálito quente batendo na minha boca, sua respiração, seu corpo, Yumi. E de olhos fechados fez um gesto negativo com a cabeça.
- Não posso... - falou, ainda com a sua boca muito próxima da minha. Nossos narizes encostaram.
- Tudo bem... - respondi ficando inevitavelmente triste, evaporando toda a felicidade instantânea de outrora.
- Você não entende...
- Entendo sim, você gosta da Jéssica, tudo bem, não tem problema.
- Você não entende.
Me deixou sozinha. Na verdade eu e minha tristeza.

sábado, 1 de agosto de 2009

Namoros e rolos

- E aí meninas!? - falou Yumi animada pondo sua cadeira ao meu lado. Jéssica acompanhou sentando-se mais para perto de Marta.
- Oi, você lembra de mim né?!
- Lembro sim Marta, como você está?
- To bem - sorriu amistosamente. Havia alguma coisa no seu sorriso. Ela olhava para Jéssica.
- Ah sim - falou Yumi passando a mão na testa - essa é... a minha... essa é a Jéssica - apresentou-a para Marta.
- Sou a namorada dela, prazer - disse Jéssica ficando visivelmente chateada.
- O que vocês estão achando daqui hoje? - perguntou Yumi talvez querendo mudar de assunto.
- Ta cheio né?!
- Bastante...
- To ficando com muito calor aqui, vou querer ir para casa mais cedo eu acho – falou Jéssica.
- Ahm - reclamou.
- Se você quiser ficar não tem problema.
- Mesmo?
- Você vai querer ficar mesmo sem estar comigo?
- Jéssica, a gente conversa isso depois - foi diminuindo o tom da conversa até não conseguir mais ouvir o que as duas conversavam.
Marta voltou-se para mim.
- E você mora na Casa de Estudante, é isso?
- Sim - respondi ainda tentando ouvir o que Yumi e Jéssica conversavam.
- É, a Carol tava me contando, tenho uma amiga que mora lá.
- Ah é?
- Sim a Débora, não sei se você conhece, ela faz jornal.
- Não é possível? Minha colega faz jornal e se chama Débora - sorri daquela estranha coincidência.
- Eu sei - sorriu.
- Sabe?
- Eu te conheço há mais tempo.
- Como assim?
- Eu lembro que uma vez ela nos apresentou quando você recém tinha chegado aqui.
- Não consigo me lembrar.
- Foi na primeira vez que você foi dar uma volta pelo Campus com a Débora, lá no café - vendo meu esforço para tentar lembrar ainda disse - tinham várias meninas lá também, foi logo que você chegou...
- Ahh sim, como poderia me esquecer - disse tentando fazer de tudo para me lembrar de quando ela estava falando.
- Na verdade - Marta se aproximara de mim - eu lembro muito bem de você. Você tinha uma carinha acuada, com certo quê de medo e de coragem vendo todo aquele mundo novo a sua volta - sorriu quase maternalmente - e eu não esqueci mais de você.
Comecei a ficar levemente constrangida com tantas informações assim, despejadas de bandeja. Apenas lhe retribui o sorriso.
- Mas a Débora...
- Ela tem as coisas dela e eu tenho as minhas - sorriu entendendo.
- Pois é, já me estressei um pouco com ela por causa disso.
- Mas ela não sabe nada de você.
- Ah não?
- Não, pois ela me perguntou e eu disse que não sabia.
- Mas de você ela sabe? - tentei prolongar aquele assunto.
- Sabe mais ou menos - sorriu também entendendo as minhas intenções.
- Eu to morrendo de sede, alguém quer tomar alguma coisa? - perguntou Yumi do outro lado, dando praticamente as costas para Jéssica.
- A Carol ia trazer alguma coisa, mas acho que ela se perdeu junto com a Má - sorriu. Era enigmático seu sorriso, porém ele no fundo, bem no fundinho deixava transparecer alguma coisa.
- Eu to morrendo de sede também - falei me dando conta que estava ficando suada.
- Então vai lá buscar alguma coisa pra nós - falou Yumi, me empurrando de leve.
- Eu não, vai você.
- Ah, eu to cansadinha.
- Pede pra Jéssica - falei um pouco irritada.
- Eu to com muito calor - retrucou também ficando irritada.
- Bom meninas é só uma bebida, eu busco pra vocês, o que vocês querem?
- Cerveja - Yumi e eu respondemos junto. Eu sorri, ela sorriu e Jéssica bufou.
- Eu quero uma vodka pura com gelo.
- Ok, Manu você vem comigo?
- Claro - já estava me levantando quando senti a mão de Yumi me segurando.
- Jéssica, vai lá com ela que eu precisava falar uma coisinha aqui com a Manu.
Depois da relutância de Jéssica ela por fim seguiu os passos de Marta sumindo entre a multidão.
- Vai ficar com ela? - Yumi me perguntou quando teve certeza de que elas já não estavam mais perto.
- Por quê?
- Pra saber.
- Não sei, não decido essas coisas assim.
- Mas ela é legal pelo menos?
- Parece ser sim.
- Eu se fosse você não ficaria com ela.
- Porque?
- Porque não.
- Se eu não te conhecesse melhor eu diria que você está com ciúme de mim - sorri.
- Você ta louca? Que ciúmes o que, to falando sério.
- Então me dá um motivo plausível.
- Ela terminou com a namorada dela faz pouquíssimo tempo. Foi bem feio, elas moravam juntas. Teve até roupa atirada pela janela do apartamento.
- Mas o que eu tenho a ver com isso?
- Ela deve ta querendo te usar pra esquecer a mulher dela - Yumi ultimamente não estava mais olhando nos meus olhos enquanto falava.
- Mas eu também to querendo esquecer a Patrícia, lembra? - sorri tentando ver até aonde Yumi iria.
- Você quem sabe - deu com os ombros.
Carol chegara sem a Má.
- Onde ta a chata? - perguntou Yumi virando-se para ela, ignorando minha presença.
- Sei lá, foi pra casa eu acho.
- Como assim?
- Ah, ela é louca! E eu não caio mais nas loucuras dela.
- Mas você não foi atrás dela?
- Eu não vou mais atrás dessa menina.
- Então vamos se divertir hoje Carol? - falei tentando animá-la.
- Vamos Manuzinha? É hoje que você vai me dar um beijo? - falou brincando.
- Eu não duvido - resmungou Yumi - a Manu fica com todo mundo.
- Ela não fica com todo mundo.
- Não? Com quem que ela ainda não ficou?
- Comigo - sorriu a Carol.
- Mas porque você tem namorada.
- E com você.
Meu coração disparou, porque a Carol tinha que ser tão inconveniente naquele momento, mas instintivamente olhei para Yumi, esperando sua reação.
- Eu também estou namorando.
- Você não está porcaria nenhuma - falou Carol.
- Claro que to.
- E aonde ta a sua namorada agora? - sorriu.
- Eu sei lá, não sou dona dela. E a sua?
- Eu não tenho mais namorada.
- Vocês terminaram pela milésima vez, é isso?
- Essa foi a última.
- Você não está com cara de quem terminou um namoro.
- É porque esse namoro já acabou a muito mais tempo do que você imagina.