quarta-feira, 15 de julho de 2009

Outras verdades

- Estava passando pela vizinhança? - perguntou muito formalmente, demponstrando apenas um sorriso gelado.
- Pati... - falei completamente desconcertada.
- Não sabia que você vinha Manu... - disse ainda no mesmo tom frio.
- Nem eu - falei sorrindo, tentando quebrar aquela barreira que se instaurara entre nós.
- Dé - ela foi em direção a ele e deu um abraço demorado. Deu um breve aceno ao namorado de André e resmungou algo baixinho - depois eu venho falar com vocês, minha mãe ta me chamando.
Fiquei em estado de choque. Meu coração batia muito rápido, quase fazendo doer meu peito. Patrícia cada dia ficava mais linda e isso era impressionante.
André me olhava inquieto.
A festa seguiu no seu ritmo normal, parecia que ninguém sentia aquela revolução que ocorria dentro de mim. Tudo parecia calmo de mais, muito diferente do que acontecia com meu coração que cada vez batia mais rápido.
Por um momento pensei que André estava errado, para Patrícia tanto fazia se eu estava ali ou não, afinal ela me tratara daquele jeito frio.
A festa já estava acabando, tinham poucas pessoas. Era impossível que Patrícia não me visse, até porque o lugar era muito pequeno. Quando muito raramente ela passava por nós, nem me olhava. Fingia que eu fazia parte da decoração. Só naquele momento que percebi que as todas as paredes tinham cartazes com várias fotos de toda a trajetória da vida de Patrícia. Meu coração deu um pulo. Será que tinham fotos comigo também? Resolvi dar uma olhada, fui caminhando lentamente seguindo o caminho das fotos. Ela bebezinho, com alguns coleguinhas. Festinhas de aniversário. Nenhuma foto minha. Fotos dela sozinha, com os meninos da rua. Caminhei com um pouco mais de velocidade indo de foto em foto me procurando, mas nada. Continuei com a minha busca quase fazendo volta em todo o barzinho, nada.
Estava desistindo, afinal, porque ela teria uma foto minha se quem foi a má da história fui eu? Ela não me devia nada, provavelmente já havia me esquecido, e mais do que isso, já havia esquecido tudo que vivemos juntas. Tudo bem era o preço que eu pagaria por ter feito tanta sacanagem com ela e comigo.
- Não te achou aí? - senti uma voz falando logo atrás de mim. Era Patrícia.
Me virei meio encabulada, então ela percebera, e não ia adiantar falar absolutamente nada, ela sabia. Apenas sorri então. Um sorriso sincero e tímido.
- Tem coisas que não mudam mesmo - falou se virando já saindo de perto de mim.
Não ia deixá-la partir como no dia que eu fui embora. Segurei-a pela mão.
Ela não se virou pra mim, apenas parou olhando para frente. Senti o peso daquele seu silêncio.
- Pati...
- Fala - virou-se pra mim como se falasse com a atendente de telemarketing.
- Você não ia me contar que ia ficar um ano longe da gente?
- E você me contou quando resolveu ficar longe de mim?
- Como assim, claro que contei, eu to aqui, onde eu moro não é tão longe assim.
- Não, - negou com a cabeça - esse aqui - apontou para o meu peito - esse aqui você nunca me contou onde ficava, nunca me contou que ficaria tão próximo de mim e depois tão distante. Nunca me contou quando ele - pousou seu indicador na altura do meu coração - foi pra longe. Tive que descobrir assim, num desses nossos tantos encontros casuais - seus olhos ficaram marejados. Eu continuava segurando sua outra mão, e sentia nela um frio que subia pelo meu braço e chegava até o meu coração. Eu não sabia o que dizer, fiquei em silêncio pensando em todas as desculpas que eu poderia dar. Mas nenhuma mais cabia. Nada mais cabia ali, entre nós.
Ela soltou-se de mim.
- Por mais que você não mereça, eu fico feliz que você de novo sem querer, acabou me encontrando num momento importante das nossas vidas. Primeiro da sua vida, agora da minha. Mas sinceramente - seus olhos enfim fixaram-se nos meus - não me interessa mais se você veio aqui sem querer, por saber, por nada. E eu sei do quanto você já foi na minha vida, isso você pode ter certeza de que nunca vai ser esquecido. Agora, o que você é hoje, infelizmente eu tento todos os dias esquecer.

Encontro casual de um desencontro descabido

Toquei pela terceira vez a campainha de André, mas não havia sinal de que ele estivesse em casa. Desci as escadas do seu prédio, parando por alguns segundos na entrada. Conhecia o porteiro, ele gentilmente me deixara entrar. Perguntei se podia usar o telefone dele, e prontamente me alcançou.
Chamou, chamou, nada dele atender. Decidi então caminhar um pouco por ali por perto, tinha um barzinho que costumávamos ir nos velhos tempos depois de cursinho. Não era GLS, mas era o que se tinha de mais "alternativo" naquela cidade. Era um bar muito pequeno, cabia cerca de 100 pessoas no máximo, o que costumavam fazer ali era fechá-lo para festas pessoais. E quando cheguei em frente dele, era isso que parecia estar acontecendo. Alguma festa de alguém.
Fiquei um pouco triste porque não poderia entrar, mas resolvi que ficaria ali na frente algum tempo, já que não tinha mais para onde ir.
Comprei uma cerveja no boteco da esquina e fiquei ali escorada em uma árvore olhando o leve movimento daquela sexta-feira. Inevitável comparar onde eu morava agora com aquela cidade que por tantos anos fez parte do meu cenário de vida. Não da minha vida, isso mesmo, de um cenário, porque nunca me senti dona dessa cidade, sempre me senti uma estranha no ninho. Olhei um casal de meninos que caminhavam de mãos dadas, um era muito mais alto que o outro, até pareciam o...
- André?! - gritei e no mesmo momento ele virou-se para mim.
- Não a-acre-di-to - falou pausadamente, daquele jeito afetado dele, e veio em minha direção me dando um abraço tirando meus pés do chão - menina, o que você ta fazendo aqui? - me deu um beijo na bochecha.
- Vim fazer uma surpresa - sorri olhando para o homem que o acompanhava. Não era o Beto. Fiquei esperando que ele me apresentasse esse novo "amigo", mas fingiu não se importar com isso, pois continuou falando comigo.
- Nossa, como você está linda, que saudade de você mulher - me abraçou novamente - é muita coincidência você aqui hoje.. ou você sabia. Você sabia né sua safadinha?
- Sabia do que?
Ele me olhou um pouco desacreditado.
- Não sei do que você ta falando Dé.
- Da festa de Patrícia.
- Que festa? Não é aniversário dela...
- Claro que não né?!
- Então o que, festa de noivado? - falei rindo, mas ele se tornara sério.
- É sério que você não sabe?
- Sabe do que? Fala logo, to ficando nervosa.
- É a despedida dela... - seus olhos ficaram fixos no meu, como se soubesse que ao ouvir isso eu precisaria de um apoio, pois minhas pernas instantaneamente estremecerem.
- Despedida pra onde?
- Ela vai pro Canadá, vai ficar um ano lá.
Senti um soco na boca do estômago, como se alguma coisa estivesse engolindo meu coração, meu peito estava apertado, minha respiração parara por alguns instantes.
- Que?
- É isso, hoje é festa de despedida dela... Ela vai pra lá, conseguiu uma bolsa da faculdade.
- Mas ela mal começou a faculdade, como já conseguiu uma bolsa?
- Ela já sabia falar inglês antes, conseguiu conseguindo.
- E ela não ia me contar isso?
- Mas vocês nem se falam mais.
- Mas não é por isso que eu não poderia ser avisada né?! Ou você acha que eu não falo com ela porque eu não quero.
- Manu - seu tom de voz tornara-se completamente sério - quando foi a última vez que você procurou qualquer um de nós?
- Mas vocês também não me procuraram!
- Eu não te procurei Manu? Sempre te ligo quando vou pra lá, sempre deixou nem que sejam recados no orkut, você que demora séculos para me responder, e ainda quando responde é um "sim", "não", ou "tudo bem e com você". Eu entendo perfeitamente tudo isso que você ta passando, não sou tua namorada nem muito menos namorado - riu-se - agora a Patrícia...
- Ela não é minha namorada também.
- Não seja criança Manu.
Terceira pessoa que me chamava de criança, acho que estava na hora de eu rever certas coisas, anotei mentalmente.
- Ela também não me procurou...
- Depois de tudo você queria que ela te procurasse?
- Mas o que eu fiz de errado essa vez?
- Não sei, responde você. Vocês duas com essa mania de me meter no meio da história. Só que dessa vez Manu, eu estou no lado da Pati.
- Mas que lados são esses que existem, não sabia que tinha ficado qualquer coisa pendente.
- Manu, acho que você deveria conversa com ela e não comigo. Eu não sou ela, ela pode me falar certas coisas, mas eu não sou quem está dentro da cabeça dela e dos seus sentimentos. Aproveita essa chance e tira tudo a limpo.
- Mas o que eu tenho pra tirar a limpo?
- Você não sabe? Então talvez não fosse bom você ir falar com ela.
Não estava entendendo o que ele falava.
- Manu - disse chegando mais perto de mim, segurando minhas mãos com ternura - eu não devia ter te falado isso, então fica quieta, mas ela ficou muito chateada que você não falou absolutamente nada com ela desde a carta que ela mandou pra você.
- Mas era pra falar o que?
- Não sei, concordar com ela, pedir desculpas.
- Desculpas pelo que? A gente terminou faz tanto tempo...
- E você acha que só porque vocês terminaram ela deixou de gostar de você?
- Não sei, ela não tem uma vida aqui? Não vai pro Canadá? O que importa o que penso ou deixo de pensar, o que eu faço ou não faço?
- Só vai importar se você se importa com ela, se não, não.
- É claro que eu me importo com ela Dé, ou você acha que eu simplesmente deixei de pensar nela.
- Acho que você continua sendo uma egoísta, mas - completou vendo minha cara de espanto - eu ainda amo você. Agora vamos entrar, ah, esse é o Nando meu namorado.
Do que será que ele estava falando sobre a Patrícia? Revirei inúmeras vezes, ou nas vezes que pude até entrar no bar, meus pensamentos tentando encontrar alguma coisa que eu tivesse feito de errado, de ter esquecido alguma coisa. Seu aniversário era só em outubro, não tinha esquecido disso. Eu só não havia falado com ela por que... Porque ela não queria falar comigo, oras. Eu não iria ficar insistindo nada. Foi então que eu pensei e descobri o que era, de certo ela ficara sabendo que a Luciana tinha ido pra lá fazia algum tempo e que a gente tinha ficado, era isso. Ela de certo ficara triste comigo, com ciúmes (nesse momento até me alegrei e esqueci que ela iria morar um ano fora).
No caminho do bar fiquei me punindo por ter ficado tão triste com essa notícia. Ela iria viajar, era um dos seus sonhos. Estudar. Aprender culturas novas. Mas porque eu ficara tão triste, eu nem falava com ela. Mas essa impossibilidade de vê-la na hora que eu quisesse me fazia mal, poderia ser egoísta, eu nunca neguei que eu era mesmo, mas pensar que ela estaria a tantos quilômetros de distância fazia eu me sentir impotente. Ficaria mais um ano longe dela. Já que fazia tanto tempo que a gente não ficava juntas. Me bateu uma nostalgia muito forte, que me fez até sentir seu cheiro. Fechei meus olhos. Aquele barulho de música, de pessoas, de conversas pareciam desaparecer. Lembrei de Patrícia e pude ver seu rosto na frente do meu. Suas feições que eu tanto conhecia, que por tantos anos tive a oportunidade de conhecer cada partezinha do seu lindo rosto. Sentia seu cheiro, que fazia com que meu coração batesse mais forte. Era incrível que só de pensar nela eu conseguia sentir tudo o que há anos tentava fazer-se esquecer.
Ela fora minha namorada por muito tempo, muitos anos de descobertas que fizemos juntas. Isso era impossível de fazer-se esquecer. Impossível. Mesmo que eu fingisse como sempre fazia, era inevitável fazer meu coração ficar calmo estando ali, no mesmo lugar que Patrícia estava. Todo esse tempo de distância que ficáramos, com Yumi, e todas as mudanças da minha vida fizeram temporariamente não pensar em Patrícia com tanta frequência. E isso era bom, assim eu não sofria. Afinal de contas, de que iria adiantar eu ter ficado pensando nela, se ela já tinha sua vida sem mim?
Nesse momento me senti mais egoísta ainda. Era fato, quase não lembrara de Patrícia em todo esse tempo que mudara de vida. E agora que ela estava mudando de vida eu me sentia no direito de me sentir traída por não ter ficado sabendo disso antes.
Mas era incrível que eu conseguia sentir seu cheiro dentro de mim. E era mais incrível ainda que sentia minhas mãos ficarem frias e suadas de nervosismo, como se fosse a primeira vez que iria vê-la. No fim era, pois quando abri meus olhos quase não reconheci aquela figura parada na minha frente.

terça-feira, 14 de julho de 2009

O caminho de casa

- Até quando vocês vão ficar sem se falar?
Levei um susto quando Renata interrompera meus pensamentos.
- Vocês quem? - perguntei mais para pensar no que responder, do que por falta de entendimento.
Ela apenas me revidou com um olhar sério, porém descontraído.
- Sei lá, não quero falar sobre isso agora - respondi um pouco ríspida. Mais porque não sabia o que responder, do que por ter ficado brava.
- Sei... - fez muxoxo.
- Deixa ela lá, ela não ta namorando a Jéssica? Então que fiquem felizes para sempre.
- Que criança que você é.
- Eu?
- Sim.
- Ela que é.
E rimos juntas. Realmente eu estava me sentindo na quinta série, mas eu fiquei brava de verdade com Yumi, eu só não sabia ainda por que.
Depois do final das férias que fora ridícula: o episódio em que tivemos praticamente uma briga de casal resultou num final de férias horrível. De um lado Yumi e Jéssica que pararam de falar comigo (como se eu tivesse feito alguma coisa de errado), do outro eu e Renata (que neste ponto preferiu ficar ao meu lado, talvez porque tivéssemos ficando - não me pergunte por que), e no meio o resto do pessoal que não entendia o que estava acontecendo, porque tamanha discussão entre nós duas. Mas foi assim que terminou julho, mais frio do que estava, mas solitário do que previa mais triste do que tinha imaginado. As férias que sonhei ser as mais legais dentre anos, que passaria mais tempo com Yumi (não, eu ainda não tinha assumido nada para mim mesma sobre meus sentimentos), e com minhas amigas, é claro (só para ilustrar), fora um desastre completo. Mas com isso aprendi algumas coisas, só não sabia direito o que.
- Vê ali na página doze, terceiro parágrafo, uma, duas, a terceira linha - Renata continuou com o trabalho - taí a base pra resposta quatro.
Percebi que ela também não queria prolongar aquele assunto. Não que eu estivesse me achando, mas tinha uma leve impressão que Renata gostava um pouco de mais de mim. Talvez porque eu não desse muita atenção aos seus xavecos, não era como a maioria das menininhas que corriam atrás dela. Talvez ela visse em mim um novo desafio, converter essa minha falta de comprometimento em uma possível paixãozinha por ela, assim ela teria sua missão concluída, fazer mais uma menina se apaixonar por ela, porque se não, como ela daria o fora em mim? Talvez por a gente se dar tão bem, e ter se aproximado mais nessas férias (sem conotações sexuais). Talvez porque ela também se sentia sozinha, e via em mim um ombro amigo (um ombro, um braço, um abraço, um afim). Talvez eu estivesse louca e tão carente que via coisas mais do que elas realmente eram. Mas também não caberia a mim e em nada, mudar qualquer coisa. Tava bom do jeito que tava. A única coisa que me incomodava era que ela tava um pouco grudenta de mais em mim, e o que sempre prezei foi a liberdade. Aceitei fazer este trabalho com Renata, mais para não chateá-la do que por vontade própria. Era bom fazer as coisas de faculdade com ela, claro. Nós divergíamos em muitas coisas e isso fazia com que nós crescêssemos em cada novo trabalho, aprendendo o que cada uma tinha para ensinar, ora modificando nossos pensamentos, ora acoplando-os, ora mantendo-os até o fim. Isso era bom, porém quando o trabalho se misturava com a vida pessoal, e isso era inevitável, a coisa complicava. Já estávamos no final de agosto e ainda ficávamos de vez em quando. Por ela, nós nos veríamos todos os dias, mas eu tentava, da maneira mais carinhosa possível, cortar os baratos dela. Às vezes ela me fazia sentir quase como sua namorada e isso me irritava. Nós não tínhamos transado, talvez fosse por isso que ela insistia tanto em fazer as coisas comigo. Durante esses meses que eu pude conhecê-la sendo apenas sua amiga e não uma peguete, via nela quase uma obrigação que ela propunha para si mesma, fazer sexo com todas. E isso, apesar de saber que Renata era uma menina linda, tanto fisicamente, mas principalmente psicologicamente fazia com que eu me decepcionasse um pouco. Na verdade, era como ela sempre dizia.
- Manu, não me entenda errado, cada um tem a sua opinião e a sua maneira de ver a vida. Você também já teve sua fase de ficar com todas as pessoas que apareciam na sua frente.
- Mas eu tinha critérios - retrucava sorrindo.
- Eu também tenho critérios.
- E quais são eles?
- Mulheres...
A verdade é que ela venerava as mulheres, de todos os tipos, cores, tamanhos. E isso era fato, qualquer mulher que ficasse com ela tinha seu ego aumentado na potência mil. Ela conseguia fazer com que quem ficasse com ela se sentisse a mulher mais desejável do mundo. Internamente poderia confessar que talvez fosse por isso que ainda ficava com ela, por carência, por precisar ouvir pelo menos de alguém (pra não dizer que queria ouvir de Yumi) que eu era uma pessoa legal. E eu não sabia por que isso estava acontecendo comigo, já que sempre fui uma pessoa auto-suficiente em sentimentos e carinho (sem conotações sexuais). Não gostava de depender dos outros, talvez fora por isso que tantas vezes havia terminado com Patrícia. Eu queria minha liberdade e ela queria namorar. Só que pra mim, essas duas palavras nunca couberam na mesma frase. Havia sonhado com Patrícia esses dias. Fiquei com vontade de ligar pra ela, saber como ela tava. Me bateu uma nostalgia forte. Uma saudade sem fim de Patrícia, do seu olhar, do seu bom dia, dela enfim. Talvez sentisse isso porque as coisas com Yumi não iam bem e como Patrícia sempre fora (há tempos atrás, concordo) minha base para tudo, minha família, sem querer acabava pensando nela nas horas de tristeza, onde o que mais eu precisava e queria, era um abraço bem apertado dela.
Fazia tempo que eu não ia pra minha cidade, afinal de contas, a última vez que fora pra lá fora antes de vir em definitivo pra cá. Rogério acabara resolvendo tudo pra mim. Já estava ganhando o dinheiro do aluguel de um casal que agora passara a morar na casa da tia Med, assim não tinha motivos pra ir pra lá. Talvez pra dar um abraço em Rogério e agradecer por ter sido tão "pai". Ele gostava quando eu o chamava assim. Fora uma das suas promessas à minha falecida mãe, que ele me cuidaria como se fosse sua filha. E de fato o fazia. Era isso, tinha que sair um pouco daqui. Ficar longe de Renata, mais longe (se possível) de Yumi. Não que essa cidade me fizesse mal, muito pelo contrário, essa liberdade, essa sujeira, essa poluição, esse barulho de motos buzinando, motores rangendo, vozes, muitas vozes, me faziam sentir um gosto de tudo, um gosto do infinito. Precisava ver rostos conhecidos, dar um abraço no André, se possível ver Patrícia que nunca mais havia dado sinal de vida, e inevitavelmente um oi muito rápido a Luciana.
Quando terminamos o trabalho já estava escurecendo, dei uma desculpa muito rápida, algo como Débora estava me esperando pra ir ao mercado, para não ficar com Renata sozinha naquele apartamento. Sabia o que ela queria. Mas o que eu queria nem eu sabia, assim não podia compartilhar com mais ninguém. E por isso precisava ficar sozinha, isso sim.
Comprei minha passagem pra sexta-feira. Faria uma surpresa ao André, levaria uma pizza para comermos na noite de sexta, junto com o Beto. Isto é, se eles ainda estivessem juntos. Dormiria por lá, já teria um lugar para ficar. O resto do final de semana não precisaria de planos, afinal já bastava essa vida regrada que eu vivia aqui durante toda a semana.
Não avisei ninguém, nem a Déia, nem Renata, nem Carol, só a Débora que iria levar seu namorado para dormir então no nosso quarto nesse final de semana.
Fui à rodoviária sozinha, senti um frio estranho na barriga ao entrar naquele ônibus. Senti o gosto daquela despedida a meses atrás, em que Patrícia me enviara por André aquela carta tão cheia de verdades. Aquela carta pesada que eu fingi não dar atenção. E esse peso de todas as coisas ditas por Patrícia foi me consumindo até finalmente fechar os olhos e dormir com a cabeça encostada na janela gelada que mostrava aquele caminho que eu tanto conhecia, mas fazia força para esquecer, o caminho de casa.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Quando tudo vira bosta

Cheguei à sacada e desabei chorando. Não sabia por que chorava tanto, mas sentia alívio.
Depois de alguns minutos consegui me recuperar. Me sentia outra pessoa. Uma pessoa renovada que depois de tanto tempo voltara a correr atrás das coisas que acreditava. Por mais que tivesse sido daquela maneira bêbada de resolver as coisas.
Ouvi alguns passos vindo atrás de mim.
- Pronto, meus parabéns, você conseguiu - Renata chegou-se por trás de mim, me abraçando pelas costas. Colocara seu rosto ao lado do meu, por cima do meu ombro. Igual fizera Yumi há vários dias atrás, na casa de Maurício.
Me virou para frente dela.
- Me deixa cuidar de você? O mais importante que era desabafar isso que você tinha a tanto tempo dentro de você, você já fez, agora me deixa cuidar do resto? - falou se aproximando muito rapidamente da minha boca, me beijando. Me senti desarmada naquele momento, como se nada me impedisse de nada. Senti sua mão passando pelo meu rosto. Existia uma ternura imensurável vindo de Renata. Ela parecia saber do que eu precisava naquele momento, mesmo não sendo Yumi. Naquele instante percebi que não queria ver Yumi nem pintada na minha frente. Estava muito brava com ela. E mais do que brava, estava triste. Como alguém que eu confiava tanto estava apostando coisas sobre minha vida com os outros? Então ela deixara-se levar pela minha "massagem" só para ver aonde eu ia, pra ganhar uma maldita aposta? Era esse o objetivo dela me fazendo pensar que ela estava na minha? Descobrir mais uma pessoa gay no mundo. Então eu era uma espécie de experiência para Yumi, para treinar seu gaydar.
- Shh, pára de pensar - falou Renata retirando sua boca da minha.
- To pensando alto?
- Não, mas seu silêncio ta me dizendo isso. Você deu o primeiro passo, largou tudo assim de bandeja pra ela. Agora espera ela entender e processar isso que vai dar tudo certo.
- E o que é esse tudo certo?
- Não sei, quando chegar a hora você vai saber o que é melhor pra vocês duas.
- Como assim?
- Ora, pra você e a Déia o melhor é a amizade de vocês.
Apenas sorri olhando para o lado.
- Eu sei que vocês ficaram - sorriu me forçando a olhar nos seus olhos - mas a questão não é essa.
- É o que então? - falei me segurando nela, ainda estava muito tonta da caipirinha.
- Sei lá to muito bêbada pra dar meus sábios conselhos pra você. Prefiro te beijar - disse me beijando novamente.
Estava me sentindo completamente vulnerável, mas até que não era ruim estar assim ali nos braços de Renata. Sentia que talvez ela quisesse ficar comigo mais para seu próprio ego, para que ela soubesse que podia ficar com qualquer menina que quisesse. Ela era assim, uma conquistadorazinha barata que todo dia transava com uma mulher diferente. Talvez quisesse ter a certeza de que eu por ser mulher, também o faria com ela. Mas sentia que seu beijo naquele instante era muito mais terno do que outra coisa.
- Então era isso - ouvi uma voz rouca, vindo de trás de Renata.
Abri meus olhos, me desvencilhando dela, olhando em direção ao som. Yumi estava ali com os olhos vermelhos, talvez de choro, nos olhando.
- Era isso, vocês estavam ficando o tempo todo e você nunca me falou isso. Depois vem querer cagar moral pra cima de mim que eu não deveria ter feito uma aposta sobre você. E você aí ficando com Renata o tempo todo sem me falar. Aparecendo com supostos chupões no pescoço que você sempre mudou de assunto pra não dizer. Agora tudo faz sentido, você ir dormir na casa da "Déia" - forçou seus dedos no ar - e eu sou a escrota agora MANU? - Yumi gritava. Via que suas lágrimas começaram a cair sem parar de seus olhos. - Então eu venho aqui me sentindo culpada de ter feito isso com você, e você aí se pegando com a Renata no meu nariz sem NUNCA ter me falado? E eu achando que tava sendo sacana com você por nunca ter te falado isso antes, tentando te preservar, e você ficando com todas as mulheres por aí sem me falar?
- Você só pode estar brincando né Yumi? Me preservar do que, posso saber? Você que tava me usando pra saber se eu era ou não. Ou agora você vai vir me olhar com esses olhinhos puxados aí - me detive alguns instantes olhando-os - me dizer que não aconteceu absolutamente nada há uns dias atrás no quarto.
- Quando?
- Quando eu te fiz massagem.
Ela ficara quieta, e nitidamente envergonhada. Álcool não fazia desaparecer tudo.
- A questão não é essa, a questão é que você mentiu pra mim.
- Quando que eu menti pra você Yumi?
- Omitir também é mentir Manu.
- Você é que mentiu pra mim o tempo todo.
- Eu menti? Nunca omiti nada.
- E porque nunca fiquei sabendo que você ficava com meninas?
- Porque nunca chegamos nesse assunto. Eu namorei com o cara aquele - ela coçou forte a cabeça - nem lembro o nome dele.
- Nossa! como você gostava dele.
- Não interessa o nome dele. Você e essa sua neura por saber o nome das pessoas. O que interessa - cada vez mais sua fala ficava rápida, conforme nossa briga ia aumentando o volume. Porém isso fazia com que sua pronúncia ficasse péssima. Pelo seu nível de álcool e pelo meu nível de bebunzice, não conseguia entender tudo que ela falava.
- O que interessa Manu, é que eu sempre te falei quando ficava com as pessoas. Você é criança Manu, eu bem sabia porque nunca tive essa conversa com você.
- Agora você arranjou outra desculpa por ter feito essa aposta, porque eu sou criança? Não entendo porque você, com todo esse jeito liberal de ser, teve tantos dedos pra conversar isso comigo.
- Eu digo o mesmo.
- Só que eu não fiz nenhuma aposta com ninguém.
- Você acha que isso e só isso que é importante?
Não entendi sua pergunta. Naquele instante eu estava completamente escorada em Renata. Conforme falava, sentia meu corpo cambalear para frente e para trás, numa tentativa muito frustrada de me manter ereta. Fiquei calada pensando, ou tentando organizar todo o turbilhão de coisas que aparecia na minha mente.
- O que interessa é que eu achei que você confiasse em mim e pelo visto não é isso que acontece.
- Digo o mesmo - falou saindo.

Não brinque com fogo

Esfreguei os olhos com a mão que não segurava o copo com muita força. Elas pararam de girar. Voltaram a ficar horizontalmente na minha frente.
- Eu não sou virgem - falei tentando parecer mais sóbrea do que realmente estava.
- Mas você nunca fez sexo com homem, sei lá que nome deve ter isso na sua cidade - falou Yumi, ainda me olhando com uma expressão inexplicável.
- Minha vez de falar eu nunca. Eu nunca namorarei, nunca beijei, nunca gostei, nunca fiz nada com nenhuma mulher - falei tomando mais da metade do copo de caipirinha de uma só vez. Senti que aquela bebida havia sido a última gota. E por mais pesado que aquele gole pudesse ter sido aquela fora a última gota de toda a angústia que eu tinha guardada dentro de mim por tanto tempo, desde quando encontrara Yumi pela primeira vez.
Yumi me olhava sem entender, fazendo que não com a cabeça. Vi que Déia ria muito, acompanhada de Renata que disse um pouco distante de mim "Até que enfim ela falou".
- Eu ganhei a aposta - falou Jéssica levantando-se, mas caíra na metade do caminho, voltando a se sentar com muita dificuldade.
- Que aposta? - perguntei, virando rapidamente meu rosto para ela. Senti minha boca do estômago sangrar. Mas não era só por causa da bebida.
- Que você é gay Manu - se intrometeu Jéssica.
- Que?
- Ela não é viu - falou Yumi ainda petrificada me olhando.
- Que? - perguntei mais alto.
- Você não é gay né?
- Que? Vocês apostaram que eu era gay?
- Viu Jéssica, eu disse que era besteira, ela não é gay.
- Não acredito que você fez uma aposta sobre minha sexualidade - olhei muito chateada para Yumi. É, álcool realmente não é uma coisa legal.
- Mas viu como eu te conheço, eu acertei - falou ela colocando novamente sua mão sobre minha perna. Tirei-a com rispidez.
- Você é uma idiota Yumi - falei me levantando como podia - era só me perguntar isso, não precisava fazer uma aposta com uma qualquer estranha que nunca vi na minha frente que eu te responderia.
- Não pensei que você ficaria tão p. comigo, desculpa.
- Desculpa o cacete, era só ter perguntando, agora metendo gente que eu nem conheço.
Jéssica fez menção de entrar na discussão, mas Yumi a interrompera.
- Mas não faz diferença, né? Porque você não é lés..
- E ainda por cima é burra, que parte você não entendeu que eu sou sim? - explodi. Onde já se vira, fazer uma aposta com uma menina que eu odiava tanto... E sobre mim, então porque não falara diretamente comigo? Custava ter me perguntado antes.
- Você é gay?
- Claro né Yumi, como você não entende, que que mais eu precisofazerpravocêmeentender? Eu não acredito que você teve que fazer uma aposta com essa, com essa daí - apontei revoltada pra Jéssica - com essa menina aí, e não veio falar comigo?
- Ué você que não veio falar comigo antes.
- Você que nunca me falou nada, você sempre tem namorados, fica com um monte de homem por aí, e quer que eu adivinhe que você gosta de mulher?
- Não entendo o que isso impede uma coisa da outra.
- Não impende nada.
Ela me olhava profundamente nos olhos.
- Porque você nunca me falou isso antes?
- Porque você nunca me perguntou isso antes? E teve que justamente fazer uma aposta com alguém que eu nem conheço.
- Fiz a aposta justamente porque você nunca me falou antes.
- Ah, vai a merda Yumi.
Sai da sala com o máximo de esforço possível para caminhar em linha reta e acertar os degraus da escada.

sábado, 11 de julho de 2009

Desde sempre

- Tive uma idéia - falou Jéssica, interrompendo meu ato.
Será que eu tinha dado muito na cara que ia beijá-la e Jéssica havia me flagrado? Olhei para o seu rosto enquanto falava, ela parecia calma de mais para isto. - Vamos fazer uma brincadeira muito legal.
- Qual? - perguntou Luiz igualmente empolgado. Parecia no fim que só os dois estavam gostando daquela tal festinha que estávamos tendo.
- Eu nunca!
- Conheço, é de mais, eu topo!
- Eu também - Carol concordou.
- Ah nem me fale - Luiz colocou as mãos no rosto.
Carol sorriu de volta. Senti que havia alguma coisa entre os dois que ninguém mais sabia, pois todos ficaram olhando para eles, esperando que terminassem a frase. Visto que eles não terminaram, e já temendo um ataque de ciúmes de Má, resolvi falar.
- Como que é isso?
- Resumidamente Manu - Luiz falou antes de Jéssica - a gente tem esse copo de bebida. Daí eu faço uma pergunta - dava pra perceber que Luiz estava nitidamente envolvido pelo álcool porque toda sua gentileza e o seu requinte com as palavras se perderam - daí depois da pergunta vem oquequemesmo? - enrolou-se.
- Por exemplo - falou Má, surpreendemente - Eu nunca dei um beijo. Quem já deu, quando o copo passar vai tomar um gole, quem nunca beijou ninguém não bebe.
- Ahmm - concordei meio sem entender.
- Segue a ordem - retrucou Rê.
- Ahm - continuei sem entender.
- Vamos começar - Déia pegou o copo da mão de Luiz.
- Eu nunca beijei homem - riu-se, tomando um gole.
Passou na sequência, Micheli, Jéssica, Maurício, eu, Yumi - todos sem exceção tomaram. Yumi entregara o copo para Carol, ela por sua vez entregou direto para a Má. Todos olharam com cara de grande espanto.
- Você nunca beijou um homem Carol??? - perguntou Yumi nitidamente incrédula.
- Nunca... Não homens heteros - riu.
Má tomara um gole, passando o copo para Luiz que passou o copo para Déia novamente.
- Entendeu Manu? - perguntou entregando o copo para Micheli - sua vez de perguntar.
- Ai, o que eu posso perguntar - falou Micheli enquanto coçava a cabeça - eu nunca.. ai - repetia ela coçando mais intensamente seu cabelo - eu nunca traí.
Todos tomaram um gole, menos Carol. Vi que quando Má tomara um gole, Carol voltara-se imediatamente para ela com uma expressão visivelmente atordoada. Talvez pensasse que Má tivesse traído ela. As duas começaram a discutir. Má subiu para o quarto, gritando algumas coisas inteligíveis. Todos ficaram em silêncio. Fechamos mais ainda o pequeno círculo que se formara de pessoas.
Depois de algumas perguntas sem cabimento, e muito engraçadas, Yumi confessou.
- Eu nunca fiz sexo com mais de uma pessoa - tomou um gole passando o copo para Luiz, que passara para Déia. Ela e os outros todos tomaram daquela caipirinha azeda. Eu apenas entreguei o copo para Yumi novamente.
- Beata - disse ela baixinho ao meu ouvido, depois de entregar o copo para Luiz.
- Eu nunca brochei - falou ele rindo, quase se engasgando quando bebeu um gole.
- Nossa gato, achava que você era mais potente - falou Maurício rindo também.
- Ah como que funciona isso com meninas? Eu não tenho um "sabe" pra brochar.
- Mas você pode ficar sem vontade na hora H - respondi.
Yumi novamente me olhara com aquela cara estranha de incredulidade.
Déia não tomara, Maurício fora o único que acompanhara Luiz no gole de caipirinha.
- Eu nunca fingi um orgasmo - tomou um grande gole. Talvez aquilo fosse uma indireta para Micheli, pois percebi que ela fechara a cara. Micheli também tomara. Entreguei o copo para Yumi sem beber. Ela por sua vez acabara com toda a bebida que ainda estava no copo. Luiz fora fazer mais.
Yumi continuava perto de mim, continuava com sua mão perto de mim, porém escorada no chão. Quando eu me mexia ela tocava levemente minha coxa.
A segunda rodada de perguntas ficara excessivamente sexual.
Perguntaram sobre posições, sobre pessoas, sobre desejos, sobre absolutamente tudo. Nada que pudesse provar que eu fosse gay. Mas todas minhas respostas afirmativas, para qualquer entendedor, e nem precisava ser muito bom, explicitavam isso. Yumi apenas me olhava incrédula. Talvez mais do que incrédula, talvez ela apenas estivesse fazendo aquele joguinho que começáramos a fazer desde quando nos conhecemos.
- A gente sabe que aqui não podemos mentir! - falou Maurício.
- Sim - Déia concordou.
- Eu tenho uma dúvida que nunca saiu da minha cabeça Luiz - voltou-se para ele - Naquela minha festa de aniversário, vocês não fizeram nada? Absolutamente nada? Tudo bem que vocês não tenham se beijado, mas nem uma rapidinha?
Luiz riu.
- Isso não faz parte da brincadeira - assumiu um tom mais sério.
- Então você fala isso porque alguma coisa tem e você nunca quis me falar!
- Eu não to falando nada seu louco.
- Eu nunca transei com um cara - falou Maurício decidido, tomando dois grandes goles. Entregou o copo para Déia. A essa altura Paulinho e Leandro já haviam subido para o quarto. Estávamos todos sentados no chão. Luiz, Jéssica (ela mudara de posição), Déia, Micheli, Renata, Yumi, eu e Maurício (também havia mudado de lugar para ficar ao lado de Luiz).
Luiz pegou o copo, olhou-o profundamente.
- Você ta esperando que eu beba né?
- Sim - sorriu Maurício.
- Por que posso saber?
- Porque eu acho que aconteceram muitas coisas no meu aniversário que você não me contou.
- Cara, você é muito preconceituoso, porque você não acredita que eu posso ser seu amigo e de todos vocês sem ser gay? Que merda! - passou o copo sem beber.
- Essa é a minha resposta Maurício - falou em um tom muito sério - eu continuo sendo hetero, continuo gostando de pegar meninas, e nem por isso vou deixar de ser seu amigo, mesmo você dando pra todos os caras que conhece por aí - gritou alto, levantando-se e saindo de casa. Maurício o seguiu. Ficamos todas paradas estáticas sem entender direito porque aquela brincadeira levara aquela briga entre os dois.
Jéssica pegara o copo que fora jogado no chão por Luiz. Olhou-o como se ele estivesse a falar com ela. Ou talvez eu estivesse tão bêbada a ponto de enxergar coisas a mais.
Bebeu um gole e passou para Déia.
- A gente vai continuar com a mesma pergunta?
- Acho que sim né? - respondeu Jéssica - para não quebrar a tradição da brincadeira temos que fechar o círculo.
- Desde quando existe tradição pra isso?
- Desde quando ninguém mais conhece essa brincadeira e eu sou a única que sim - riu-se estranhamente.
- Hmm, pois eu não preciso beber para essa pergunta - sorriu vitoriosa.
Porém Micheli bebera, passando para Renata que a imitara tomando um gole quase que interminável daquela caipirinha sem gelo e com muita vodka. O copo chegara em mim. Nunca havia feito nada com homens. Nada além de beijo. E só.
Entreguei o copo intocável para Yumi, que custou a pegá-lo da minha mão.
- Você? - ela fez a cara mais incrédula que eu já tinha visto.
- Eu o que? - perguntei custando a fixar Yumi em uma só imagem, pois tudo ficara embaraçosamente duplo e embaçado.
- Você é virgem? - e deixou-se soltar uma risada um pouco nervosa.
Déia seguiu-a rindo também, e logo estavam todas rindo, inclusive eu.
- Claro que não né?! - respondi ainda tentando fazer com que as duas imagens de Yumi se tornassem uma só.
- Como não se a pergunta era se já tinha transado com um cara e você disse que não?!
Arranquei o copo de sua mão, com muita conficção. Engraçado que quando bebemos conseguimos ser pessoas mais corajosas. E acredito também que somos mais sinceros com o que sentimos e o que pensamos. Por mais que o álcool tome conta, ele deixa muitas vezes escapar muitas verdades que tentamos no nosso dia-a-dia esconder socialmente. É por certo que perdemos a razão quando bebemos. Mas também sabemos que não podemos agir só com a razão, que às vezes precisamos dar um chute pro alto e ver o que acontece, sem ter tudo planejado. Claro que eu sabia que era "errado" beber para poder se soltar, mas que então aproveitasse a situação para enfim deixar bem claro para Yumi que eu gostava de mulheres. Por um segundo eu vacilei, olhei para os lados sem enxergar absolutamente nada. Prometi silenciosamente mais uma vez parar de beber. Fechei os olhos por mais alguns segundos, sentindo que minha cabeça fortemente era lançada para todos os lados, girando em um movimento sem fim. Talvez eu devesse me deixar levar por aquele caminho tortuoso e cheio de curvas, pra ver onde daria. Abri os olhos com força para voltar a realidade. Vi que as meninas me olhavam, e também seguiam o movimento da minha cabeça, girando, girando, girando.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Você é luz, é raio estrela e luar

Depois de algumas horas bebendo caipirinha, todos já estavam falando mais alto, batendo nas coisas, rindo de qualquer besteira. Ainda estávamos nas mesmas posições na sala, a única diferença era que Yumi sentara-se ao meu lado em um determinado momento e não saíra mais dali, mesmo com os pedidos silenciosos de Jéssica, que estava posta ao lado de Déia e Micheli.
- A gente precisava de um violão! - falou Paulinho um pouco enrolado.
- Nossa, esqueci de trazer o meu! Na verdade - olhei para Yumi - essas meninas aí trazem tanta coisa que nem tinha espaço pra um violãozinho humilde viajar.
- Lá em casa tem um violão velho - Jéssica levantara-se - vamos buscar então?!
- Eu não saio daqui nem me pagando - falei irritada por tamanha eficiência.
- É perto daqui.
- Então busca você - sorri, tomando mais um gole daquela caipirinha muito forte. Senti o gosto ardente da cachaça arranhando minha garganta.
- Sozinha?
Ignorei-a.
- Vai lá pô - falou Déia - a gente precisa animar essa nossa festinha!! Eu canto, a Manu toca, vocês tiram a roupa pra gente, ta valendo! - riu-se de si mesma.
- Eu concordo! - emendei.
- Eu também - gritou Luiz, pondo-se em pé - vou com você buscar o tal violão, vamovamovamovamo! - enrolou-se.
Muito contra vontade, lá foram os dois no meio da chuva buscar o violão. Já estava esperando um violão empenado, ou sujo, ou sem cordas, mas me surpreendi quando enfim, depois de praticamente duas horas, Luiz e Jéssica entraram pela sala, completamente molhados, mas segurando uma mala preta com orgulho.
Jéssica sentara no outro lado da sala, talvez querendo provocar Yumi, mas ela não se deixara levar. Ou fingia muito bem, ou realmente não importava para ela, pois continuou ao meu lado, sem hesitar. Em poucos minutos todos cantavam as musiquinhas de excursão que eu e Déia puxávamos. Yumi uma hora deixara a sala. Fiquei levemente triste com aquela atitude, vi que Jéssica a seguira quando foi em direção aos quartos, subindo as escadas. Porém voltaram em menos tempo do que previa. Yumi com um edredom (o mesmo que me cobrira dias atrás) na mão. Sentou-se novamente ao meu lado, nos cobrindo. Me senti feliz, e que eu estava ganhando a guerra que se instalara entre Jéssica e eu. Então Yumi preferia ficar ao meu lado ao invés de curtir a sua "ficante".
Estava ficando quente embaixo do edredom, mas eu não iria me desfazer daquele lugar. Tocamos a música preferida de Yumi. Era uma música do Frejat - Túnel do Tempo. Quando comecei a introdução, senti que seu olhar voltara-se todo para mim. Olhei pra ela, cantando baixinho junto com Déia, e todos que conseguiam abrir a boca para cantar, além de beber. Lembrei do dia em que eu cantara pra ela sozinha, no seu showzinho particular. Me senti brega. Por baixo da coberta, senti sua mão encostando na minha coxa, e lá permaneceu até o final da canção. Fiquei excitada. Queria cantar e tocar outras músicas que ela gostava, pra ver até onde ia essa sua mão. Novamente me senti uma cafajeste com ela, mas uma cafajeste menos canalha do que antes, porque então eu já sabia que ela também gostava de meninas. Ela é que não sabia de mim.
Já não sabia mais nenhuma música para tocar, afinal todas de excursão haviam acabado. Também não conseguia ter nenhuma coordenação para tocar músicas mais complexas do que de 4 acordes. Até Wando foi tocado.
Coloquei o violão deitado ao meu lado, me esticando para não deixá-lo cair. A mão de Yumi com o meu movimento, acabara descendo para perto do meu ventre. Me arrepiei. Senti vontade de dar um beijo nela. Quando voltei a ficar sentada, sua mão continuou ali estática. Estava com um pouco de álcool na cabeça, mas Yumi era mais fraca que eu, certamente deixara sua mão ali por causa disso. Voltei meu olhar para ela. Ela ainda me olhava. Senti que rolar um beijo entre nós, seria questão de poucos segundos. Eu tomei atitude, fui em sua direção, meio tonta pela bebida, meio tonta pela louca vontade de beijá-la, meio tonta por sentir sua mão ali tão próxima de mim.