quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Primeira ida

- Ta pronta?
- To e você?
- Também.
- Então vamos?
- Sim.
- Você ta nervosa?
- Não e você?
- Também não.
- Então vamos?
- Sim, vamos – me estendeu a mão.
- Vamos – lhe retribui com um sorriso.
Entramos naquele lugar tão esperado e desconhecido. Tinha muitas gentes e por incrível que pareça, várias pessoas com seus respectivos namorados e namoradas. Sorri satisfeita, aí sim.
Encontramos com o André e o Beto.
- Vocês demoraram hein?
- Você não sabe a mão que a gente fez pra chegar aqui.
- Não entendo porque vocês não vieram comigo.
- Porque a gente ainda tem aula.
- Esqueci que vocês ainda são crianças.
- Oi Beto, tudo bem com você?
- Tudo ótimo, vocês estão lindas.
Papo vai papo vem encontraram um amigo deles, desapareceram nos deixando sozinhas.
- E aí meu amor – falei dando-lhe um beijo – o que você está achando?
- Muito legal – seus olhos brilhavam. Fiquei feliz de vê-la assim. Enfim poderíamos nos beijar a vontade naquela festa. Nossa primeira balada GLS. Ainda era estranho ver todo mundo sendo autêntico, podendo demonstrar o seu afeto sem medo de punição. Era gostosa aquela sensação de apenas segurar a sua mão sem olhares. Aqueles olhares que matavam, que castigavam mesmo sem culpa. E as vozes. Os resmungos.
Mas ao mesmo tempo que era boa aquela sensação de liberdade, tanta liberdade dava medo. Ainda sentia culpa. Ainda sentia o peso daquela situação.
- Eu te amo – fui surpreendida. Ela me olhava nos olhos.
- Eu também – sorri apaixonada.
Mas culpa por quê? Eu não estava fazendo nada de errado. Não estávamos, estávamos?
- O que foi meu amor?
- Nada.
- Fala, eu te conheço.
- Só tenho pensado numas coisas ultimamente.
- No que, posso saber?
- Ahm, me sinto mal por ter que fazer tudo escondido com você.
- Mas hoje você não precisa se esconder.
- Mas pra estar aqui hoje estamos nos escondendo, não?
- Sim.
- Estamos supostamente na festa do pijama de uma colega nossa que nem existe, assim como às vezes o nosso relacionamento parece não existir.
- Como parece não existir?
- Quem mais além de nós duas sabe do nós, de tudo que eu sinto por você. Que eu te amo, que eu só penso em você, que você é a menina mais linda do mundo. Que eu sou a menina mais sortuda e a mais feliz com você? Quem mais além de nós duas sabe que você é o amor da minha vida, que a gente está juntas há tanto tempo, que eu te amo desde a primeira vez que...
Colocou seu dedo delicadamente sobre meus lábios me fazendo parar de falar.
- Quem mais além de nós duas pra sentir tudo isso que a gente tem?

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Reflexos

Já estava meio desiludida daquela festa que não acabava. Marta e Carol continuavam conversando muito, suspeitei que estivessem perto de mais pra quem estava apenas trocando algumas ideias. Provavelmente elas haviam ficado. Eu não culpava Carol, ela tinha seus motivos. Na verdade ela tinha todos os motivos pra isso, idiota era a Maria, sempre com sua incansável chatice. Ela que ficaria sozinha no fim. Solteira com gatos, mil gatos, no zero a zero até o fim do jogo.
Fui ao banheiro. Me olhei profundamente no espelho. Quem eu via? Alguém sozinha, e nem ao menos gatos eu tinha. Apenas histórias pra contar. E nem gatos eu tinha pra contar. Nem histórias, apenas roteiros não produzidos. Nenhuma história até o fim. Aquele fim esperado. Apenas projetos guardados dentro daquela gaveta de cabeceira, junto com um monte de lixo, aquelas coisas que nunca sairiam dali. Apenas eu aqui e lá. Só eu. E os lixos. Os tais roteiros. A trajetória que eu vi de longe, que nunca fez parte de mim.
E a Patrícia? Onde será que ela tava agora? De certo mais do que onde, ela estava como. Como sempre sonhou. Viajando, aprendendo, e de certo com o coração bem ocupado da Rafaela. Do amor. E o meu amor, onde tava? Vazio, perdido em qualquer canto daquele lugar sujo, cheio de gente, de barulho, do instantâneo e do solúvel. E eu?
Sozinha. Sem ela, sem o nós, sem ninguém. Todas as vezes que tive, desfiz. E depois de tanto desfazer ou não deixar que o fizessem nada, lá estava eu. Sozinha. Apenas num reflexo solitário. Sozinha não. Na verdade eu e minha decepção. Não. Eu, minha decepção, meu não estar e meu mal estar.
É, no fim eu não estava sozinha, estava com todas as minhas coisas. Eu e meu reflexo. Os reflexos das minhas coisas. Eu.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Dois lados

Avistei a menina-bonita-da-praia. Yumi negara meu beijo, não tinha nada a perder - iria falar com a menina, o que mais poderia acontecer, ela me negar um beijo também? Não havia morrido pelo primeiro beijo negado da noite, não morreria se assim tivesse o segundo.
Caminhei decidida em sua direção. Ou caminhei como pude, pois havia tantas pessoas por metro quadrados que mal conseguia sair do lugar, quando cheguei à posição em que ela estava, novamente havia perdido ela de vista. Sorri para mim mesma desiludida, esta noite não era pra mim.
Voltei à mesa com as meninas, Jéssica e Yumi já não estavam mais. Carol e Marta travavam uma conversa engraçada, as duas gesticulavam muito, Carol por certo já estava bêbada de mais, talvez triste pelo término de seu namoro. Marta assumira um tom maternal novamente, parecia que aos poucos conseguia acalmá-la.
Não estava muito disposta a ficar ali servindo de ombro amigo, afinal eu é que precisava de um. Então que eu achasse algum ombro para chorar, pensei triste. Fui novamente em direção ao bar, porque afinal de contas todas as vezes que foram buscar alguma bebida haviam se esquecido de me dar alguma.
Dei de cara com Déia e Renata, ambas muito bêbadas. Déia sorriu, vindo em minha direção com os braços abertos.
- Oi meu amor - segurou-se firme em mim - onde você estava?
- Levando um fora da Yumi - falei no tom exato para que Renata pudesse ouvir também. Cada uma ficou de um lado meu.
- Duvido que aquela japa idiota tenha te dado um fora - falou Renata se aproximando mais de mim.
- Pois eu também duvido - Déia a imitara. As duas estavam praticamente se beijando, ou me beijando, não fazia diferença.
- Vocês estão bêbadas - sorri - e eu não, então me deixem comprar alguma coisa pra ficar no mesmo nível de sanidade de vocês.
Tentei passar minha cabeça por baixo do braço das duas, porém elas me impediram.
- Sabe Manu... - iniciou Renata.
- a gente tava pensando numa coisa - continuou Déia.
- Lá vem - suspirei suspeitando.
- Você ta solteira, eu também.
- E eu também - completou Renata.
- Sim, então vamos procurar alguém pra gente não continuar mais solteiras? - falei já prevendo o provável desfecho.
- Sabe aquela historinha de que a gente procura procura as coisas que estão bem debaixo do nosso próprio nariz?
Soltei uma gargalhada, não era possível que elas estavam falando aquilo. Ou eu estava ouvindo coisas de mais.
- Hm, o que tem essa história? - me fiz de desentendida.
- A Rê é linda.
- Sim eu também acho.
- A Déia é linda - falou Renata.
- Continuo concordando.
- E você é linda - foi a vez de Déia continuar.
- Se vocês dizem - continuei rindo.
- Pra que negar aquilo que a vida nos disponibiliza? - Renata se aproximou ainda mais de mim.
Eu comecei a rir sem parar naquela situação.
- Déia ela acha que a gente ta brincando.
- Ela é do interior, deve ta pensando que estamos brincando mesmo.
- Vamos mostrar pra ela que a gente não brinca em serviço.
Ali na minha frente, Renata se aproximou de Déia beijando-a, a poucos cm do meu olhar. Mais do que qualquer outra coisa, estava achando aquela situação muito engraçada.
Após o beijo as duas voltaram-se para mim, num mesmo olhar fixo e mútuo, minha boca.
- Vocês tão brincando...
Renata não esperando eu terminar a frase passou seus braços em volta de mim me envolvendo, me puxando e me beijando, sem chance de segunda opção. Só parou de me beijar, pois eu começara a rir sem conseguir me conter.
- Aí Rê, você não sabe fazer nada que preste mesmo hein? – falou Déia tentando me puxar pelo braço.
- Calma aí Déia – segurei-a pelos braços, estava quase me beijando também.
- Desde quando você acredita em monogamia? – perguntou Renata me olhando.
- Eu não acredito.
- Então?
- Então nada, vocês estão bêbadas.
- E?
- E ponto.
- Dois pontos Manu, o que está por vir.
- E o que está por vir?
- Pode ser um beijo meu.
- Ou?
- Ou da Renata.
- E ou?
- Ou você dá nas duas – sorriu.
- Ou? – ainda tentei.
- Ou você leva mais um fora de Yumi e ou – falou interrompendo minha tentativa de prosseguir – ou você fica sozinha. Uma velha, solteira, caída, sem gata nenhuma, com gatos, mil gatos, zero a zero, game over.
Não consegui conter minha risada.
- O que você tem a perder Manu?
- Nossa amizade?
- Você não disse que estamos bêbadas, ninguém se lembrará de nada amanhã.
- Mas eu não estou.
- A gente confia em você.
Fiquei em silêncio sem saber o que fazer. Ri, apenas continuei rindo.
- Manuela você é chata de mais, peloamordedeus – falou por fim Déia me deixando sozinha com Renata. Ela por sua vez ficou me olhando por alguns instantes sem falar absolutamente nada, esperando talvez alguma reação, e vendo que não o fiz, nem de longe, saiu. Fiquei sozinha. Eu e apenas eu.

domingo, 2 de agosto de 2009

Re-cortes

- Que papo de louca é esse Carol, você não ta falando sério, ta?
- Eu to.
- Mas ta tudo bem? - interrompi o questionário de Yumi.
- Ta tudo perfeito.
- Como assim? - insistia Yumi – Mas o que aconteceu?
- O de sempre, porém eu to farta desse nosso sempre.
- Mas ninguém termina namoro assim Carol.
- Assim como?
- Do nada.
- Quem disse que foi do nada... – pareceu que falou mais para si do que pra nós, tentando talvez encontrar as suas razões para este fim. Olhava para a pista de dança do térreo.
- Yumi, vem cá - disse quando Jéssica e Marta chegaram com as bebidas.
- Que foi? - perguntava Yumi enquanto a puxava pelo braço para um local mais distante das meninas.
- Pra que ficar fazendo este questionário com a Carol, você não percebe que ela ta triste.
- Você acha que ela ta com cara triste?
- Acho que não.
- Eu também acho que ela não ta com cara triste e é por isso que eu to preocupada, acho que agora a coisa é pra valer. Nunca vi a Carol sem uma gota d'água nos olhos depois de terminar com a Má. Nem que fossem lágrimas de raiva.
- Mas ficar fazendo perguntas não vai melhorar a situação.
- E o que vai melhorar a situação Manuela?
- Não sei.
- Aposto que essa sua cara de "não sei" ajuda muito menos.
- O que foi?
- Que foi o que?
- O que você tem?
- Eu não tenho nada, ta louca você também?
- Porque você ta assim comigo?
- Eu não to nada, você que ta me ignorando a noite toda.
- Eu to te ignorando? Como eu vou falar com você se você está se agarrando com a Jéssica?
- Vai você lá ficar com a Marta, não é assim que você vem fazendo desde sempre, ficando com todo mundo e não me contando nada?
- Começou...
- Começou o que? Eu não comecei nada, to até saindo daqui.
Segurei-a pelos braços. Tive vontade naquele instante de lhe dar um beijo, podia ser roubado, podia ser inesperado, mas um beijo, ali, naquele lugar, naquele momento desde sempre. Olhei no fundo dos seus olhos e não vi hesitação nenhuma. Meu coração começara a disparar, o sentia bater forte dentro do meu peito.
Passei minha mão sobre seu rosto, Yumi fechou os olhos. Me aproximei rapidamente dela, encostando meu corpo no seu. Olhava para seu rosto tão perto do meu, meu coração batia tão forte que mal conseguia ouvir a música alta que tocava. Fui em direção a sua boca, ainda com minha mão sobre seu rosto. Yumi abrira os olhos mirando diretamente para minha boca. Fechou-os novamente, pousando seus dedos sobre minha boca impedindo que eu lhe desse um beijo.
- Manu...
Ficamos assim por algum tempo que não sei quanto, nossas bocas separadas apenas pelos seus dedos. Ainda assim sentia seu hálito quente batendo na minha boca, sua respiração, seu corpo, Yumi. E de olhos fechados fez um gesto negativo com a cabeça.
- Não posso... - falou, ainda com a sua boca muito próxima da minha. Nossos narizes encostaram.
- Tudo bem... - respondi ficando inevitavelmente triste, evaporando toda a felicidade instantânea de outrora.
- Você não entende...
- Entendo sim, você gosta da Jéssica, tudo bem, não tem problema.
- Você não entende.
Me deixou sozinha. Na verdade eu e minha tristeza.

sábado, 1 de agosto de 2009

Namoros e rolos

- E aí meninas!? - falou Yumi animada pondo sua cadeira ao meu lado. Jéssica acompanhou sentando-se mais para perto de Marta.
- Oi, você lembra de mim né?!
- Lembro sim Marta, como você está?
- To bem - sorriu amistosamente. Havia alguma coisa no seu sorriso. Ela olhava para Jéssica.
- Ah sim - falou Yumi passando a mão na testa - essa é... a minha... essa é a Jéssica - apresentou-a para Marta.
- Sou a namorada dela, prazer - disse Jéssica ficando visivelmente chateada.
- O que vocês estão achando daqui hoje? - perguntou Yumi talvez querendo mudar de assunto.
- Ta cheio né?!
- Bastante...
- To ficando com muito calor aqui, vou querer ir para casa mais cedo eu acho – falou Jéssica.
- Ahm - reclamou.
- Se você quiser ficar não tem problema.
- Mesmo?
- Você vai querer ficar mesmo sem estar comigo?
- Jéssica, a gente conversa isso depois - foi diminuindo o tom da conversa até não conseguir mais ouvir o que as duas conversavam.
Marta voltou-se para mim.
- E você mora na Casa de Estudante, é isso?
- Sim - respondi ainda tentando ouvir o que Yumi e Jéssica conversavam.
- É, a Carol tava me contando, tenho uma amiga que mora lá.
- Ah é?
- Sim a Débora, não sei se você conhece, ela faz jornal.
- Não é possível? Minha colega faz jornal e se chama Débora - sorri daquela estranha coincidência.
- Eu sei - sorriu.
- Sabe?
- Eu te conheço há mais tempo.
- Como assim?
- Eu lembro que uma vez ela nos apresentou quando você recém tinha chegado aqui.
- Não consigo me lembrar.
- Foi na primeira vez que você foi dar uma volta pelo Campus com a Débora, lá no café - vendo meu esforço para tentar lembrar ainda disse - tinham várias meninas lá também, foi logo que você chegou...
- Ahh sim, como poderia me esquecer - disse tentando fazer de tudo para me lembrar de quando ela estava falando.
- Na verdade - Marta se aproximara de mim - eu lembro muito bem de você. Você tinha uma carinha acuada, com certo quê de medo e de coragem vendo todo aquele mundo novo a sua volta - sorriu quase maternalmente - e eu não esqueci mais de você.
Comecei a ficar levemente constrangida com tantas informações assim, despejadas de bandeja. Apenas lhe retribui o sorriso.
- Mas a Débora...
- Ela tem as coisas dela e eu tenho as minhas - sorriu entendendo.
- Pois é, já me estressei um pouco com ela por causa disso.
- Mas ela não sabe nada de você.
- Ah não?
- Não, pois ela me perguntou e eu disse que não sabia.
- Mas de você ela sabe? - tentei prolongar aquele assunto.
- Sabe mais ou menos - sorriu também entendendo as minhas intenções.
- Eu to morrendo de sede, alguém quer tomar alguma coisa? - perguntou Yumi do outro lado, dando praticamente as costas para Jéssica.
- A Carol ia trazer alguma coisa, mas acho que ela se perdeu junto com a Má - sorriu. Era enigmático seu sorriso, porém ele no fundo, bem no fundinho deixava transparecer alguma coisa.
- Eu to morrendo de sede também - falei me dando conta que estava ficando suada.
- Então vai lá buscar alguma coisa pra nós - falou Yumi, me empurrando de leve.
- Eu não, vai você.
- Ah, eu to cansadinha.
- Pede pra Jéssica - falei um pouco irritada.
- Eu to com muito calor - retrucou também ficando irritada.
- Bom meninas é só uma bebida, eu busco pra vocês, o que vocês querem?
- Cerveja - Yumi e eu respondemos junto. Eu sorri, ela sorriu e Jéssica bufou.
- Eu quero uma vodka pura com gelo.
- Ok, Manu você vem comigo?
- Claro - já estava me levantando quando senti a mão de Yumi me segurando.
- Jéssica, vai lá com ela que eu precisava falar uma coisinha aqui com a Manu.
Depois da relutância de Jéssica ela por fim seguiu os passos de Marta sumindo entre a multidão.
- Vai ficar com ela? - Yumi me perguntou quando teve certeza de que elas já não estavam mais perto.
- Por quê?
- Pra saber.
- Não sei, não decido essas coisas assim.
- Mas ela é legal pelo menos?
- Parece ser sim.
- Eu se fosse você não ficaria com ela.
- Porque?
- Porque não.
- Se eu não te conhecesse melhor eu diria que você está com ciúme de mim - sorri.
- Você ta louca? Que ciúmes o que, to falando sério.
- Então me dá um motivo plausível.
- Ela terminou com a namorada dela faz pouquíssimo tempo. Foi bem feio, elas moravam juntas. Teve até roupa atirada pela janela do apartamento.
- Mas o que eu tenho a ver com isso?
- Ela deve ta querendo te usar pra esquecer a mulher dela - Yumi ultimamente não estava mais olhando nos meus olhos enquanto falava.
- Mas eu também to querendo esquecer a Patrícia, lembra? - sorri tentando ver até aonde Yumi iria.
- Você quem sabe - deu com os ombros.
Carol chegara sem a Má.
- Onde ta a chata? - perguntou Yumi virando-se para ela, ignorando minha presença.
- Sei lá, foi pra casa eu acho.
- Como assim?
- Ah, ela é louca! E eu não caio mais nas loucuras dela.
- Mas você não foi atrás dela?
- Eu não vou mais atrás dessa menina.
- Então vamos se divertir hoje Carol? - falei tentando animá-la.
- Vamos Manuzinha? É hoje que você vai me dar um beijo? - falou brincando.
- Eu não duvido - resmungou Yumi - a Manu fica com todo mundo.
- Ela não fica com todo mundo.
- Não? Com quem que ela ainda não ficou?
- Comigo - sorriu a Carol.
- Mas porque você tem namorada.
- E com você.
Meu coração disparou, porque a Carol tinha que ser tão inconveniente naquele momento, mas instintivamente olhei para Yumi, esperando sua reação.
- Eu também estou namorando.
- Você não está porcaria nenhuma - falou Carol.
- Claro que to.
- E aonde ta a sua namorada agora? - sorriu.
- Eu sei lá, não sou dona dela. E a sua?
- Eu não tenho mais namorada.
- Vocês terminaram pela milésima vez, é isso?
- Essa foi a última.
- Você não está com cara de quem terminou um namoro.
- É porque esse namoro já acabou a muito mais tempo do que você imagina.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Estranhas coincidências

Chegamos ao bar e como sempre estava muito lotado. Muita gente bonita, mas em compensação, muita gente estranha também. Normal, mais uma sexta-feira à noite. Enquanto aguardávamos na fila, Yumi e Jéssica não se desgrudando, Carol e Má sem parar de discutir, Déia ainda arrumando a maquiagem, e Renata sumindo em meio à multidão, pois encontrara pessoas conhecidas, percebi um rosto passando por mim. Olhei mais atentamente, sorrindo para mim mesma. Era uma menina muito bonita que havia descido do ônibus junto com Micheli, lá na praia. Aquela que pensei ser a tal amiga de Micheli e que no fim era apenas mais uma passageira do ônibus. Forcei um pouco os olhos para ter certeza de quem era. Anotei mentalmente que precisava descobrir o seu nome, e quem sabe seu endereço futuramente. Sorri - cafajeste. Sim, as coisas poderiam voltar à sua normalidade. Assim esperei.
- Pra quem você ta olhando com essa cara de cobiça? - senti Déia me perguntando ao pé do ouvido.
- Eu? - me fiz de desentendida.
- Você - sorriu gentilmente.
- Cinco da tarde - falei tentando não mexer a minha boca.
- Que?
- Cinco da tarde.
- Que porcaria é essa de cinco da tarde?
- Você não conhece? - perguntou Jéssica se intrometendo na conversa após sair de um longo beijo com Yumi.
- Que? - voltou-se para ela ainda sem entender.
Após explicar que isto era uma maneira de mostrar alguém ou alguma coisa a partir dos ponteiros do relógio, Déia enfim olhou em direção à menina, porém ela já não estava mais lá.
- Você achou que ela ia ficar te esperando? - falei um pouco braba - tenho que falar com essa menina, eu a vi lá na praia, sério, muito linda!
- É?
- Sim, perfeita - falei me animando um pouco.
- Quem? - foi a vez de Yumi se intrometer.
- Não sei, a Déia é pamonha de mais, me fez perder a menina de vista.
- Uma menina?
- Sim!
- Onde?
Déia e eu rimos, parecíamos loucas.
Entramos com certa dificuldade. Muita gente bêbada, muita gente fumando, muita gente se pegando, tudo impedia qualquer tentativa de caminhada. Pedimos uma cerveja bem gelada, que apesar do frio na rua, estávamos morrendo de calor. Novamente avistei a menina-bonita-da-praia passando. Desta vez não iria perdê-la de vista.
- Manu - senti uma mão me puxando - essa aqui é a Marta, minha colega da psico - sorriu Carol me dando uma piscadela.
- Oi, Marta - dei um beijo em sua bochecha.
Voltei rapidamente meus olhos para a direção da menina-bonita-da-praia, porém novamente ela havia sumido do meu campo de visão.
- Oi Manu - sorriu. Ela não me era estranha. Fiquei pensando de onde eu conhecia aquela menina.
Marta ficara sem assunto, e Carol logo tratou de falar qualquer coisa sobre como o bar estava cheio, que a música tava ruim, se nós não estávamos a fim de subir e ir a um lugar um pouco mais reservado. Fui empurrada gentilmente por ela para que saíssemos dali. No caminho fui procurando com os olhos qualquer vestígio da menina-da-praia, mas nada. Quando achava que estava vendo, Carol me puxava com um pouco mais de força, me empurrando para que ficasse mais perto de Marta.
- E aí, o que você achou dela?
- Mas Carol, eu nem conversei com ela, como vou saber?
- Mas ela é gata né?!
- Sim, ela é bonita.
Era ruiva, tinha cabelos encaracolados bem compridos. Tinha olhos claros, e seus lábios eram muito grossos. Era no mínimo diferente. Só que havia alguma coisa de errada no seu sorriso, alguma tristeza encravada, quase distante.
Sentamos em uma das poucas mesinhas que estava livre.
- Vou buscar uma cerveja pra você Marta - disse, pegando a Má pela mão e levando-a consigo nos deixando sozinhas.
Ambas perceberam a jogada de Carol. Ela riu encabulada, eu ri ainda com o canto do olho tentando encontrar a menina-da-praia.
- Então você faz publicidade...
- É - falei meio desatenta. Seria sacanagem com a menina não lhe dar atenção. Postei meus olhos novamente para os dela. Ela tinha alguma coisa muito profunda escondida, talvez alguma tristeza. Só podia ser isso.
- E você é colega da Carol?
- Não, quer dizer, mais ou menos, eu sou veterana dela.
- Ah, que legal.
- Sim, gosto muito delas... - ela hesitou nesse momento.
- Eu também acho que a Má é meio inoportuna às vezes - soltei rindo.
Ela concordou rindo também.
- Eu conheço a Carol há um bom tempo, nunca vi as duas sem brigar, juro para você - ainda completou vendo minha cara de descrença.
- Eu não sei como conseguem namorar desse jeito.
- Mas elas se gostam, isso que é o mais louco de tudo.
- Sim, só com muito amor pra aturar a Má - ela riu.
- Pelo visto você não acredita muito em namoros né?! – me perguntou.
- Ta tão na cara assim?
- Mais ou menos - sorriu.
- E você acredita?
- Mais ou menos - continuou a sorrir.
- Acredito no amor, não no namoro.
- E você acha que eles conseguem se distanciar tanto assim?
- O amor e o namoro?
- Sim.
- Eles por si só não...
- Mas...?
- Mas quando você namora e ama sim.
Ela me olhou enigmática.
- Não vai querer me analisar agora né? - falei brincando.
- Você deixaria eu te analisar agora? - falou se aproximando de mim.
Inevitavelmente eu ri. Ela sorriu de volta. Olhei para os lados em busca de qualquer coisa, dei de cara com Yumi e Jéssica que se aproximavam trazendo duas cadeiras consigo.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

De volta a volta

- Então ta tudo bem com vocês agora?
- Agora sim, conversamos um pouco.
- Um pouco? Pelo que eu entendi vocês passaram a noite toda juntas.
- Sim.
- E não fizeram nada?
- Como nada? A gente ficou conversando.
- Não te faça de bobinha Manu, pegou ou não pegou?
- Ai como você fala dela desse jeito, como se fosse uma coisa qualquer.
- Sim ou não Manuela?
- Claro que não né Déia!
Renata apenas acompanhava nossa conversa pelos seus olhos que condenavam estar prestando atenção.
- Não entendo porque você é tão fresca e demorada Manu, você já ficou com todo mundo menos com ela, não sei o que tanto espera.
- Mas ela tem namorada.
- E que importa?
- Importa que ela gosta dela.
- Gosta? Duvido muito.
- Você acha?
- Não interessa o que eu acho, me ajuda a fechar aqui - virou-se de costas para mim para eu fechar sua blusa - o que interessa hoje é que você vai sair desse zero a zero.
- Quem disse que eu to no zero a zero?
Déia voltara-se para Renata, ainda em silêncio.
- Você precisa conhecer pessoas novas Manu.
- Eu sei - falei me arrependendo, talvez eu estivesse sendo um pouco rude falando essas coisas com a Renata ali na minha frente. Mas ela parecia não se importar muito com isso.
- Hoje eu não vou dormir em casa - falou surpreendentemente Renata.
- Vai dormir onde, posso saber? - perguntou Déia passando lápis no seu olho.
- Ainda não sei - riu-se de si mesma.
- E a Malu?
- O que tem ela?
- Ela vem?
- Sei lá, ela ta namorando uma menina aí.
- Ta todo mundo namorando ou é impressão minha?
- Não querida Manuzinha, só nós três estamos encalhadas.
- Mas você quer namorar? - perguntei incrédula.
- Claro que não - sorriu. Rimos as três. Enfim tudo aos poucos voltava ao normal.
Tocou a campainha, era Yumi e as meninas - Jéssica, Carol e a cara fechada de Má.
- E ai meninas mais lindas deste país, prontas? - falou Carol com um sorriso sempre muito simpático para todas.
- Carol, agora que está tudo muito bem resolvido e informado, você bem que podia me apresentar alguma amiguinha né? - falei me aproximando dela com um sorriso - ouvi dizer que as meninas da psico são as melhores - olhei para a Má brincando. Como se fosse possível ela conseguiu fechar mais um pouco sua cara.
- E são mesmo, pena que não são todas que dão o seu devido valor a elas - olhou cansada pra Má - mas eu tenho uma amiga sim pra te apresentar.
- Sério? - Yumi perguntou se intrometendo.
- Sim! - se aproximou de mim - eu mesmo ia dizer isso, a chameiela pra ir lá com a gente, ela disse que vai aparecer. Mostrei o teu orkut pra ela, ela te achou bem gatinha.
- Ah!, mas não era pra ser assim tão milimetricamente calculado.
- Mas não foi você que disse que é um jogo de estratégia? - Yumi voltou-se para mim.
- É, mas quando eu dito as regras.